       UM ATEU ALM DO TMULO

    OSVALDO POLIDORO


  een a n  o e l n r ec
(r c r a  d Ala Ka d )
                         UM ATEU AL M DO TMULO


       " Se um s irmo beneficiar-se com esta narrativa, fugindo ao desequilbrio, escapando
s torturas conseqentes, dar-me-ei por pago do esforo despendido na transmisso da
mesma" .


                                        O Autor Espiritual
                           UM AMIGO E UM CONVITE

       Primeiramente devo dizer que o meu estado psquico ressente-se ainda de avarias
pronunciadas. Afinal, fcil ser para quem j conhece alguma coisa na vida errtica, que um
grau hierrquico interno corresponde a uma zona hierrquica externa. Assim, pois, sendo o
planeta slido circundado de zonas concntricas e superpostas, ou cus, como se dizia
antigamente, simples ser compreender que,  medida que for o esprito, se iluminando
internamente, tanto mais ir tendo ingresso em zonas mais divinizadas.
       Tambm, no quero entendam esta teoria de um modo dogmtico; porque um plano
qualquer desses comporia gradaes vrias de seres. Entre o que seja mais evolvido em uma
zona e o que esteja em ponto antpoda, uma infinidade de pequenas variaes existem. Uma
zona ou faixa, portanto, sendo j especificao hierrquica, no deixa de ser, tambm, de um
modo geral, genrica quanto ao padro mdio em si. Entende-se, portanto, que dentro de uma
zona hierrquica, existe campo para muitos poderem ensinar e aprender. Isso seria impossvel,
caso uma zona astral fosse habitada por uma s e grave condio espiritual.
       Os cus, portanto, embora crescendo em expresses,  medida que se afastam da
crosta, nem por isso comportam menos umas tantas heterogeneidades. Sbia lei regula os
fenmenos da vida em qualquer de suas manifestaes, disso dvida no deve permanecer em
ningum. E quem pensar em cu  moda catlica ou protestante, um cu sem toda uma
interminvel cadeia hierrquica, pode estar certo de que, ao ter de enfrentar a realidade, ao
desencarnar, ter tambm de modificar o seu modo de pensar.
        E isso j far um grande bem ao filho de Deus, esse filho das futricas teologais, dos
despeitos religiosistas, dos interesses conchavistas das religies. E se acharem que estou
avanando muito, deixem tambm para mais tarde, fazerem um juzo qualquer.  que, embora
todas as religies preguem o bem teoricamente, nem por isso deixam de fazer certas guerras,
bem mais imundas do que as feitas pelos polticos e militaristas. Pelo muito que os
religiosismos usurpam dos seus crentes, com os seus padres e suas futricas fetichistas, que
outra coisa no so os formalismos que vendem, bem poderiam falar um pouco mais de
verdade. E no caso de no a ter, melhor no seria que a procurassem?
        Hoje, como homem sofredor que ainda sou, mas consciente das infinitas condies de
vida no astral da terra, e consciente do que sempre houve de espiritualismo sadio no plano da
carne, digo com todo o vigor de minha alma, que os cleros nunca fizeram mais do que
truncar, com seus interesses, sectrios a evoluo da humanidade, no verdadeiro sentido.
Tendo, pois, oportunidade de falar aos que ainda medram nos planos densos, fao-o com
prazer, ao lado de mirades de outros que, ao redor da terra fazem a mesma coisa, para o
mesmo fim, que  ilustrar o homem a respeito das infinitas possveis condies de vida, na
erraticidade, quando o tal denso plano tiverem de abandonar.
       Quem vive na terra, em geral, queixa-se de como vive, acreditando que poderia viver
melhor. Inconscincia de direitos e de deveres  que isso testemunha, em grande parte; mas,
tambm,  sinal que a esperana jamais morre. Como tambm em estas plagas da vida assim
ocorre,  bom v-se o encarnado acostumando a sondar as razes de suas deficincias, de no
poder saltar para melhor, assim com o simples gosto de querer. De resto, sem ter vontade de
fazer humorismo, ningum  barrado em sua marcha progressiva, rumo a tais melhores planos
de vida. O que  de aquilatar, porm,  que no adianta aguardar a ingerncia de favores, nem
da parte de leis, nem de figures quaisquer.
       Todos os chefes juntos, de Cristo para baixo, nada fariam nesse sentido;  da lei
fundamental que sejam eles mestres em tcnica, em moral, em exemplos, em todo e qualquer
ngulo em que sejam precisos seus ensinos, seus misteres edificantes. Quanto porm 
edificao interna, que  o nico instrumento ascensor, isso fica por Divina Determinao, a
cargo de cada um. As instrues externas devem vir e de fato vm de fora, no por um mestre
apenas, mas por mirades deles, de um modo que, muitas vezes, passa despercebido at. A
realizao interna  de foro absolutamente ntimo. Por isso mesmo, nego haja quem tenha
mais conhecendo menos; o certo  que, se sabe sempre mais do que se tem. As lies andam
muito mais do que o aluno.
       Fcil  saber, difcil  realizar. Quem mais do que eu pode fazer aluso a um tal
princpio? De tal modo dirige a Suprema Lei o Universo e seus fenmenos, em todos os
sentidos, em todos os planos, que, saber mais e proceder menos, corresponde a sofrer mais e
ter menos direito de reclamar. Isso j  muito sabido, em vista o que disse Jesus. Mas  sabido
teoricamente; porque, em base prtica, no creio que haja na terra, como pessoa encarnada,
quem d cabal desempenho ao dever, de proceder em conformidade com o que sabe, de
ordem moral e espiritual.
       Fui, pois, como pouco mais ou menos o so todos os homens, um transgressor da Lei;
o mal todo foi o que sabia sobre ela, e no o que dela ignorava. Ela no d a quem j no
possa de fato ter, nem pede qualquer coisa a quem de fato nada tenha dado.  nesta linha
mecnica e moral que tem sua atividade. E  por isso que o homem, que julga ter de um dia
enfrentar um tribunal que no sabe onde est localizado, sente-se em si e por si mesmo
logrado, ao deparar com o juiz interno, que o faz entrar na posse daquilo que edificou, seja o
que for, expresses indizveis de luz, ou abismos tenebrosos. O seu a seu dono, tal a lei da
Lei Suprema. E quem atende reclamaes? Com quem reclamar? Por que forma? Onde?
        H, sem dvida, uma sada para tudo. Reclamar? Apresentar razes? Tudo  possvel e
justificado. Basta ir reclamar precisamente aonde se cometeu a falta. No ntimo de cada um,
revolver atos tristes, misrias que tais; destru-las a umas, reparar a outros, atirar fora os
pedregulhos e encher-se de bens divinos.
 certo que, s vezes, antes que tal se possa fazer, muitos decnios devamos aos planos
limbosos. Depois de resgatados os erros moralmente, comear ento a reparao tcnica,
brandamente. E quem tem de desmanchar um ato, por ser ruim, e repor um bom no local, j
no perde em tempo alguma coisa? Com a dor do reparo moral e o tempo necessrio para
reparar tecnicamente, somado tudo, no daria para concordar em que, viver do melhor modo,
seria trabalhar menos e lucrar mais?
        Todos ns, homens e mulheres do mundo astral imaginamos muito nisso. Temos
esperanas fortes nos efeitos do Consolador ostensivo, em seus tremendos avisos, nas suas
lies de amor e temor. No obstante, o Espiritismo no se responsabilizar jamais pelos atos
dos seus adeptos. O sacerdcio estar sempre muito acima das aes dos seus sacerdotes. Por
isso, j vi muitos espiritistas em lugares nada recomendveis, aqui por estas bandas. O reino
do cu no  dos religiosos;  de quem for mais verdadeiro! No foi a Verdade que Jesus
recomendou como libertadora? E se ela toma no mundo humano aspecto Moral e Cientfico,
por que anda o homem a desprez-la, enquanto cuida em comprar e vender disparates
litrgicos?
       Sei bem que  por falta de experincia; neste caso, que ningum despreze as carssimas
lies da vida. E se os homens desencarnados falarem, pelas mltiplas canaletas medinicas,
passando  frente, no o preo de suas experincias, mas ao menos a inteligncia das
conseqncias vividas e sofridas, que no deixem os viajores da carne, em esquecimento, o
mrito dos avisos. Cumprimos nosso dever, bem a par das sbias lies do Divino Mestre. Foi
quem avisou muito sobre os mritos do Consolador, como distribuidor de informes precisos.
                                        O AMIGO

       O meu servio aqui , no poucas vezes, muito inferior ao que desempenhava na vida
de encarnado. Na minha vida de encarnado era professor primrio. E como tivesse, agora o
sei, grave embalagem do passado pesando sobre mim no sentido do ceticismo, e sendo certo
que as concepes antropomrficas sobre Deus no podiam ter em meus raciocnios aceitao,
o que fiz, por quase toda a vida, foi ensinar um quase absoluto atesmo. Afirmava que uma
fora regia o universo; mas que a isso chamar Deus era coisa de simplrios.
        Por razo moral explicava que, em face de ser uma fora, com carter geral para todos
os efeitos, fria em todos os sentidos, de nada poderiam valer os atos ditos ou tidos como
religiosos, comprados ou vendidos. Hoje, francamente, louvo-me de assim ter pensado. Nisso
estava certo. E com a conscincia que venha de alcanar, sobre uma Divina Essncia, Poder
Absoluto, que tudo engendra e rege de dentro para fora, sinto em mim apenas a dor moral de
ter falhado no modo de interpretar essa Divina Essncia, criando no nimo dos pequenos,
disposio para negaes prejudiciais. No foi o que fiz no momento; foi o que causei, como
conseqncia, o que me prejudicou muito.
        Como conseqncia para mim, ficou o ter-me encontrado, em ps a desencarnao por
acidente, em um lugar onde no havia suficiente ar para respirar. Agora sei que nos planos
astrais inferiores, tanto se pode sofrer por ter demais como de menos, qualquer bem da vida.
Pode parecer estranho, mas o desequilbrio  quem gera todo o mal. E por aqui disso pode
haver, por isto ou por aquilo, de um modo ou de outro, causando dor espiritual, moral,
mental, intelectual e material a nosso modo. A nosso modo, sim, em vista de tudo ser questo
de relao entre o indivduo e o ambiente, sua intensidade psquica e a densidade dos
elementos csmicos.
       Ns vivemos em pleno mundo material, para certos efeitos, bem assim, como, para
outros, em mundo astral acentuado. Tudo  relativo em qualquer ponto do universo, dizem os
mais sbios daqui. Por isso, enfrentamos dificuldades e contamos com gratos acontecimentos e
sublimes possibilidades, no mesmo ambiente.
       Faltava, pois, ar para respirar, no plano por onde perambulei uns trinta e poucos anos.
No que fosse triste de tudo. No que faltasse ali vida organizada. No que deixasse de contar
com alguns bons recursos. O mal  que, havendo de tudo um pouco, havia pouco ar, causando
isso muito sofrimento aos cidados do local. Havia pocas, como que periodicamente certas,
em que o mal se agravava, em forma de crises. O desespero roa, acabrunhava, tornava
malucos a muitos. Alguns corriam, fugiam, queriam esconder-se em bosques ralos. Outros,
notem bem e no pasmem, morriam... Sim, morriam, tendo de ser enterrados. E agora sei
que no morriam, pois deixavam, como acontece na terra, um corpo mais denso em troca de
outro mais leve.
        Morrer era um modo de findar a purgao moral em tal plano. Outros modos existem,
sendo que eu, por exemplo, tendo ido dormir uma noite, no dia seguinte acordei em lugar
bem estranho. At hoje, ningum me disse o que comigo se passou, se morri por l, se para
c fui trazido por algum delegado para tanto. Como tudo  possvel, porque de leis no h
falta na Obra Divina, nem tenho interesse em procurar saber isso.
       Agora estou, pois, num plano socorrista, como faxineiro. Tenho doze horas de trabalho
por dia. E no sou o nico professor que est fazendo isso. Gente de bem mais alto coturno
est passando por coisa pior. E por muito pior do que isto, vi gente muito mais importante do
mundo passar em tenebrosos lugares. Isso, porm, serve-me de consolo. Que seria dos
pequeninos do mundo, se os grandes de l pudessem comprar tambm a justia daqui? Pelo
menos, por estas bandas, ningum poder discutir a condio de um rei ou de um pria, por
v-los, ambos, em bem maus lenis. Cada qual tem o seu, independente dos ttulos do
mundo, das prerrogativas da sociedade terrcola.
       Ningum  julgado por ter sido rico, pobre, ignorante ou sbio; mas  julgado pelo
modo como exerceu a sua vida, segundo cumpriu seus deveres. A Justia Suprema no age
por despeito, como julgam os beatismos tolos do mundo.  l no plano da prpria
conscincia, l onde o ser em si mesmo sabe estar a falta cometida. Onde ps luz, encontra-a.
E onde ps trevas, no deixar de encontr-las. O imperador como o lixeiro, tanto podem ser
bons como ruins.
       No pavilho onde trabalho, pois, fui procurado por um amigo, o Simo. Vinha ele com
ordem para me levar ao chefe dos servios, com urgncia. Este Simo,  bom o diga, tambm
veio de planos intelectuais do mundo fsico, tambm teve seu quinho na falta de ar, bem
assim como distribuiu negao divinal a muitos irmos da terra. Hoje, tambm estranha que
tenha negado o Esprito Divino, sendo natural que mais do que Ele no h o que exista. A
vida regurgita de Vida por todos os poros, o que se v manifesto, testemunha o Supremo
Imanifesto de todos os modos. At onde poderemos ser brutos, santo Deus?!...
 Vamos imediatamente, Janeiro, que o chefe deseja v-lo;  disse-me ele, de um
modo interessante, sorrindo e apreensivo...
 Que h de novo?  indaguei, curioso, notando-lhe o sorriso leve e a acentuada
expectativa, enquanto largava a um canto vassoura, escovo e panos.
 Isso  o que quero saber!  resmungou o amigo, fazendo um gesto de mo todo a
seu modo.
      E acrescentou elucidativo:
 Voc sabe que o Plano Divino no  o de nos ter rastejantes; Deus quer de ns coisa
melhor. Quem sabe l se isso que vem para voc, no curso dos liames, no vir me atingir,
tambm e beneficamente? Como a Divindade no  aquela cegueira fria de que ns
cogitvamos antigamente, e tudo o que faz  por meios naturais, sempre espero que no bojo
de uma ao aparentemente alheia a mim, venha a mim diretamente alguma coisa.
       Quando todos na terra pensarem assim...  considerei.
      E ele emendou, com a sua sempre boa dosagem de senso comum:
 Quando todos na terra pensarem assim, a humanidade viver feliz, porque o bem de
uma clula, verdadeiramente, s poder ser como produto do bem geral. Menos disso,
convulses de toda ordem podero abalar os fundamentos de toda e qualquer felicidade
temporal.
 Nem que a tal " morte" tenha de intervir!  interrompi-o, por me vir  tona uma
avalanche de recordaes que tais, todas de triste nimo.
      Ao que ele, entrementes saltava um valo que carregava a sujeira para lugares de treva,
de onde vinham muitas vezes bramidos tristes, lgubres, concluiu, lastimoso:
 Nem se duvide...  s mesmo com muito de mortes e renascimentos... O de que,
porm,  bom tratar,  que nem a morte, com todo o seu squito de vida e contundentes
lies, faz s gentes do mundo, o que se julgaria por clculo, por teoria.
       Nesse momento, quase transpondo o portal da Diretoria, parei para indagar melhor,
pois no havia entendido bem o sentido do palavreado. E ele repetiu, mais explcito, por
outros termos:
 Pois voc no sabe que apesar dos testemunhos do plano astral, fazendo se
manifestem nos Centros Espritas os seres mais sofrveis, para servir de exemplo rude, nem
por isso os encarnados apresentam, ou tratam de apresentar, melhor cartel de conduta?
 Bem,  intervi  voc poder negar a qualquer um seu direito de experincia
prpria? Comece por ns o seu raciocnio: quanta gente nos disse no mundo, sem dvida, que
estvamos pensando erradamente? No entanto, para nossos bestuntos, quem estava militando
em erro?
  razovel...  concordou ele.  E isso prova que o bicho mais rezador no  o
mais. ..
       E terminaria o pensamento de um modo menos recomendvel no gnero humano, se o
chefe no tivesse vindo ao nosso encontro, por ouvir-nos falar. Depois dos cumprimentos,
disse-me o chefe:
 Janeiro, eu o felicito. Vai deixar-nos, rumo a seus mais belos ideais.  de meu
dever humano e dirigente, abra-lo com fervor, sentindo o valor de uma inteligncia vigorosa
e dcil.
       E como me vi num repente face a face com tudo quanto tinha sofrido nos lugares onde
faltava o ar suficiente, eis que ele, penetrante que era, sem ser um grande esprito, observou:
 Felizes aqueles que aproveitam as sbias lies da vida, meu caro Janeiro. Errar 
da prpria vida, uma vez que o sentido da mesma  de baixo para cima, da ignorncia para a
sabedoria, da inconscincia para a conscincia. Quantos esto em condies piores, muito
piores, e esquecem-se de que sofrem de si prprios?
           Fez uma pausa regular e disse, ilustrando sua tese:
 Ontem, meus amigos, fomos socorrer um grande general do mundo, que h quase
trinta anos medrava pelos campos de sangue, morticnio e gemidos, que lhe tocaram por
turno, com a desencarnao. Assim que lhe dissemos que era j desencarnado e que sofria o
produto de suas prprias aes, perguntou-nos, ansioso:
 Ento, meu senhor, sofro por ter perdido alguma batalha?!...
        E quando lhe foi dito que sofria por t-la ganho, pois foi um vitorioso at o final das
campanhas, ele que compreendia bem o dever das conquistas externas, ficou sem compreender
o sentido do dever para com as conquistas de si mesmo, dos sagrados imprios do esprito,
resmungando deste modo:
 Mas!... Porventura!... Meu Senhor!... No estar falando com algum que no 
quem julga ser? Pois se fui um vencedor, de que me acusaria Deus?!...
       E que fez com ele?  indagou o amigo Simo.
 Como no  justo pedir conselho a desvairados, e como  justo trat-los como a
doentes, desde que havia disposio reequilibrista em seu favor, tiramo-lo de onde estava e,
dentro em pouco, ser o seu substituto nos servios de faxina, no nosso mui prestimoso
servio socorrista...
       Um mundo de coisas passou pela minha mente, com relao ao ensino do Cristo, sobre
os exaltados que seriam humilhados, e vice-versa. Enquanto isso, depois de receber do chefe o
afetuoso abrao, entramos para o seu gabinete. E deu-me ele o carto que disse ter vindo de
seus superiores hierrquicos, com o qual deveria eu apresentar-me no local para onde me
levaria um dos seus auxiliares.
       Simo estava de folga. E como eu tivesse recebido ordem de no tornar ao servio, fui
com ele dar uma volta pelos arredores infelizes, para o lado onde tudo era trevas,
embaamento, gemidos e blasfmias. No queria sair dali, sem levar na lembrana certas
impresses desagradveis, para, eventualmente, um dia me servirem de avisos
consciencionais. Ali, talvez mais do que em outras plagas, estava vigorosamente exposta a
ao da lei de causa e efeito.
        Embora protegidos pelas barreiras defensoras, penetramos tanto nas brumas dolorosas,
que, o terror parecia querer nos assaltar, fazer-nos correr. Uivos, gritos, berros, gargalhadas
terrveis, lstimas, pedidos de clemncia, vergastadas, palavrinhas e palavres; influncias
energticas perniciosas, mau cheiro, fedores insuportveis, de tudo havia ali e tudo nos
transmitia seu recado macabro.
 Quantos se julgaro culpados de suas dores?  indagou-me Simo.
 No sei... Mas como sempre culpamos aos outros pelos nossos fracassos...
                                  NOUTRA REGIO

       Dentro em pouco, ao cair da noite, que ali beleza alguma tinha, pois a poesia entregava
todos os pontos ao trgico, fui procurando por um auxiliar do chefe.  que o mensageiro ia
sair, conduzindo-me. J havia posto uma dedicatria em um exemplar de " O Novo
Testamento" , para deix-lo como lembrana a Simo. Isso feito, todas as despedidas, que
bem sentidas foram, em vista de forjadas, no cadinho da dor, as amizades, partimos por
volio, graas ao mensageiro.
 Eis a cidade!  disse-me o rapaz, apontando para baixo e mostrando-me uma
cidade de umas seiscentas mil almas, mais ou menos, que apresentava aspecto bem mais
consolador do que o lugar de onde vinha eu.
 Pelo que vejo, por ser noite, parece ser uma cidade de gente feliz... Ao menos, meu
amigo, diviso horizontes montanhosos e poticos, para alm do casario que se espraia
rareante.
 Vamos descer?  disse ele, parecendo no atender ao meu apelo ntimo, que era
encontrar um pouco de po artstico para a fome do esprito, um tanto recalcada.
       E numa frao de segundo, talvez, j estvamos  soleira de uma porta, sendo
recebidos por doce voz feminina, partida de uma senhora que abraara o rapaz, chamando-o
filho.
 Este  o amigo Janeiro, de quem j lhe falei, mame. Ter pousada em nossa casa,
at que queira deix-la, por seu gosto.
       E como me tivesse apresentado, sabendo eu que era sua me, fiquei to encantado com
a situao e as circunstncias, que, nem jeito tive para falar aquilo que  preciso. Tendo ela
notado isso, apanhou-me pela mo direita e disse-me, com um profundo sentido maternal na
voz, essa voz de me, que eu de tanto no ouvia:
 Seu Janeiro, amigos de meu filho, meus filhos so. Venha conhecer mais uns irmos
e mais algumas irms.
       E apresentou-me a mais de umas vinte pessoas, todas jovens, mui alegres e
esperanosas, que em torno a mim sorriam, cada qual mais se interessando por meus mais
comezinhos interesses, numa demonstrao de cordial fraternismo. E como eu estranhasse
uma filharada tal, a dona da casa explicou-se:
 Meu caro Janeiro, so quase todos filhos adotivos. No mundo, perdi todos os meus
e, como julgava e julgo ser a vida uma obrigao social em si, e de no curtas longitudes
morais, procurei tomar filhos alheios para criar. Os vivos andam por l... Os mortos esto
aqui. .. Outros medram em planos superiores... Nos baixos ningum tenho, graas a Deus.
       E os seus filhos, julguei, seriam da ltima encarnao? Se tinha perdido a todos... E
assim imaginava, quando ela enveredou a palavra para o terreno prprio, sondando minhas
ntimas inquiries:
 E os filhos so de vida anterior na carne,  isso mesmo. Seu Janeiro, ningum tem
filhos no mundo, seno irmos que de fato necessitam de amparo. A constituio familiar  o
marco zero da iniciao coletiva no indivduo, como princpio de educao social.
A terra vai enveredar para plano superior e, ai daquele que se no compenetrar de tais
verdades.
       Eu antevia naquela mulher uma profetiza? No sei dizer. S sei que de to poucos
minutos conhecidos, ela me passava  retentiva, informes sublimes. E como aquela moarada
estava atenta a ouvir, fiquei calado, tambm, para colher mais algumas palavras. E Mariana
prosseguiu, numa tal convico, que, creio, passaria a certeza de suas afirmativas, at a uma
pedra:
 A falsa educao do mundo vai ter o seu fim, na conquista de conhecimentos mais
nobres por parte dos homens. O ciclo amplia-se, e, cada qual ir se compenetrando da
obrigao de ampliar suas solicitudes ao gnero humano. Os jacobinismos tero que ceder
lugar ao mais intenso esprito fraternista. Os exclusivismos so sinnimos de miserabilismo. E
 no seio da famlia que o homem aprende a ser egosta, invejoso, falso, despeitado,
rancoroso, tudo por falta de uma melhor educao, sobre as origens, o plano e as finalidades
da vida.
       Eu estava boquiaberto, francamente surpreso. Aquela mulher avanava para um campo,
ante o qual se curvaria a coragem de muitos ditos educadores, figures de todos os naipes,
inclusive a grande maioria de instrutores religiosos. E ela foi dizendo, firme e simplesmente,
os olhos brilhando sob a chama de uma elevada e estranha inspirao:
  da vontade do Cristo, neste dealbar de um novo ciclo, que se passe ao homem de
qualquer ngulo planetrio, o informe de melhor comportamento. O lao consangneo deve
ser encarado como subordinado ao espiritual. O que at aqui se tem feito  negar o esprito em
face da matria. E como sem amor espiritual  impossvel exercitar bem outros sentidos do
amor, eis que a famlia ficou sendo um reduto de instrues criminosas.
       Parou um momento; olhou significativamente para os jovens todos que a circundavam;
e continuou, dando  voz um timbre profundamente grave:
 Quantas famlias no mundo o so  base de verdadeira compreenso? Que exemplos
do os seus elementos componenciais? E muitas vezes, por quais injunes premidos? Quantas
vezes o convencionalismo social no trucida o verdadeiro sentido da comunho familiar? Em
que grau de porcentagem a famlia  o bero da verdadeira educao social? No  certo que o
instituto da famlia, que deveria ser o ponto de partida do amor universal, torna-se na maior
parte das vezes o propagador dos ideais mais criminosos?
       Aquela mulher devia saber alguma ou muita coisa sobre mim. Ela estava entrando por
um terreno que me era diretamente ntimo. Eu tinha recebido de meu pai muitas instrues
negativistas, bem assim como as tinha passado  frente. E do resultado nada tinha a duvidar.
E Mariana prosseguiu, concluindo:
 A Lei do amor  acima de tudo. No respeita barreiras convencionais. E se esta Lei
fosse vivida, os pais, os filhos etc. seriam entre si amigos e no algozes. Como, porm, o erro
surge da ignorncia, eis que o programa  orientar do melhor modo. E ns que trabalhamos
junto dos irmos encarnados, por meio do Consolador manifesto, devemos respeitar nossas
oportunidades.
      Sorriu e emendou:
 Estou com o meu discurso, estragando vosso divertimento... Vo tocar, que a
msica sublimiza o carter.
      E olhando para mim, disse com bondade:
       Janeiro, ns teramos de nos encontrar um dia...
      Mandou-me sentar em um sof, sentou-se ao meu lado e prosseguiu:
 No curso do movimentar infinito, os fatores encarregam-se de aproximar os
elementos. As foras csmicas, os mundos, as pedras, os homens... Entre ns h muita coisa
em comum; mas prefiro que primeiro v encontrar a seu pai...
       Um arrepio me perpassou pelo corpo todo ao ouvi-la dizer assim. De fato, eu nada
ainda havia sabido sobre meu pai, embora sempre o julgasse em melhores condies do que
eu. Mas, verdadeiramente, como e onde estaria? Por isso, sentindo que poderia ser franco, em
vista de Mariana externar tanto sentimento de igualdade, perguntei:
       Sabe alguma coisa a seu respeito, senhora Mariana?
      Ela encarou-me bem, pensou por um instante e depois disse:
 Calemos sobre isso, por hoje; amanh poder comear a tratar de tal assunto.
Afinal, Janeiro, o prprio amor  matemtica... Matemtica e nada mais, uma vez que tudo 
 base de Lei, em Deus, com Deus e por Deus. Nenhum outro prisma existe para ser
utilizado, sendo que o dever dos filhos  compenetrar-se da Lei do Pai. Sem Lei nada h e
nem se movimenta, sem Lei o existir e o movimentar seriam crimes, por a finalidade no ter
objetivo fixo.
       E aguardou qualquer considerao de minha parte, a julgar pelo estacato que fez e o
olhar que me lanou. Por isso, senti-me na obrigao de considerar:
 Como forjou esse carter to slido em torno de tal princpio de Lei?
 Quem, Janeiro, espiritualmente falando sondar os escaninhos da Moral, da Filosofia
e da Matemtica, assim ter que pensar, sentir e viver. E com os suprimentos que me vieram
com a desencarnao...
       Esteve nos planos de dor?...
 No. A Lei do amor  a Suprema Lei. Eu no lhe disse que perdendo meus filhos
procurei filhos aparentes, filhos alheios?...
       Ento, o amor de Deus a recompensou?
       No! Mil vezes no!  retrucou ela, veemente.
       No entendo muito bem, senhora Mariana...
     E uma moa, que veio sentar-se ao meu lado, tendo ouvido o final de minhas palavras,
emendou, intervindo;
 Mame Mariana, ,  vezes, difcil de ser entendida; espere, todavia, que jamais
deixou ponto por explicar.
       De fato, afirmou, explanando:
 O mundo religioso terrcola est empanturrado de convencionalismos ridculos. At
o presente, Janeiro, os homens fazem da Suprema Lei um joguete dos beatismos mais
repugnantes. Sem conhecer as leis, querem explicar os fenmenos e a conseqncia lgica  o
absurdismo teologal que medra pelo mundo. Em lugar de amor cientfico, cultivam o amor
temor, o amor fetichista, aquilo que  baboseira convencional, por onde cleros esfarrapados
subsistem. Vo dizendo de Deus uns tantos superlativos nauseantes; mas ficam intimamente
suspensos em face de uma calamidade telrica, de um terremoto, de um tufo, de uma guerra,
de uma epidemia etc.
       Sem dvida, o amor humano para com Deus, sempre se me afigurou como de fundo
supersticioso, fetichista, quase hipcrita. Noventa por cento das recomendaes religiosistas
do mundo, giram em torno ainda do aplacamento da ira de Deus, embora em moldes mais
suaves. Todos, quase, querem comprar a Justia Divina por meio de oferendas e propinas. A
prpria orao, que  a utilizao do poder mental radiante, fora tremenda mas relativa, tal
como tudo no que se diz relativo,  utilizada com fins utilitaristas, imediatistas, individuais.
Por tal razo, estava ouvindo com prazer uma tal dissertao, principalmente partida de uma
mulher, que por questo de sensibilidades e recalques religiosistas, quase sempre pensa como
determinam os conchavismos clericais, e no como o bom senso indicaria, isto , segundo o
produto da melhor sondagem, quer por razes morais, quer filosficas, quer cientficas. E
Mariana foi seguindo:
 Tudo tem explicao lgica. Nada sendo sem Lei, na sondagem por meio de leis 
que est a chave de tudo. No entanto, fanticos uns, medrosos outros, animalizados outros,
vivemos sempre adorando atravs do erro, do crime, as bajulaes mais repugnantes. Poucos
pensam usar o Amor e a Cincia, a Moral e a Filosofia, como instrumentos de respeito, que
outra coisa Deus no quer; mas, cada qual e cada credo, vai inventando balangands e
bugigangas,  custa dos quais pretende surrupiar  Divina Lei, o direito de ser Justa, a sua
condio de integridade, sem altos e nem baixos.
       Depois de silenciar por um pouco, afirmou que nada mais diria em tal sentido, depois
de sentenciar:
 O modo de cultivo religioso deveria ser o do Cristo. Depois de ter a Revelao
ostensiva por evoluo, coisa que  em vista de lei e no de favor ou desaforo da parte de
Deus, viver moral e cientificamente do modo mais franco possvel, quer para com Deus, quer
para com o prximo, e, acima de tudo para consigo mesmo. Sim, pois quem  traidor para
consigo, como vai ser fiel aos outros? Ou, quem poder dar o que no tem?
       Ps-se de p para receber uma outra jovem que chegava, tendo eu ficado com a que
estava ao meu lado. E foi ela quem disse o seu nome, travando comigo um dilogo.
 Chamo-me Flora, senhor Janeiro. Gostaria de saber qualquer coisa sobre seus
interesses prximos, se lhe no for molesto adiantar-me alguma coisa. Trabalho em um Centro
Esprita na crosta e, sempre colho elementos na prpria vida, com que ilustro as fracas
palestras que posso manter com os irmos da carne.
       Sendo discpula de mame Mariana, muito de interessante deve ter para contar aos
amigos da carne. Ela  rigorosa em seus conceitos ao tratar das leis fundamentais que regem a
vida.
 Quem a fez assim foi o prprio viver. Em outros tempos viveu com quem falava
muito em Deus, no amor a Deus, na Misericrdia Divina, enquanto agia como bem entendia.
A Justia Divina colheu-os a todos em suas malhas integrais, pois a bajulao no encontra
nela ecos. Ela procura saber e sentir Deus, por si mesma, como melhor pode, tirando proveito
das lies da vida. Os preceptores daqui convidam sempre nesse sentido, pois cada qual tem
em si de Deus, tudo quanto os outros possam ter. E no confundem o dever humano de
ensinar sempre o melhor, sem se arrogar o direito, alis estpido, de converter, salvar ou
condenar a quem quer. Ns bem sabemos que  por lei natural que cada qual chega a ter o que
busca, sem ser preciso que segundos por ele isso faam. Aqui, senhor Janeiro, o Evangelho de
fora  medocre e o de dentro  sagrado... Qualquer um sabe que aquele sofreu corrupes,
sendo que o interno, embora estando por ser desperto, no sofrer jamais uma tal leso. O
Evangelho interno  Deus em ns... Precisamos aprender a manifestar o brilho de Deus, de
dentro para fora... Eis porque, nesta regio, no h clerezia e nem templos, como em outras
principalmente nas inferiores.
       Onde oram?
 A comisso anuncia um lugar qualquer, sendo que o povo vai se quer ir. Em todo e
qualquer lugar  lugar, pois a comisso  constituda de homens trabalhadores e sem
preconceitos.
       Mas h uma comisso?
 Sim, senhor; mas  rotativa. Cada seis meses trocam-se os elementos constitutivos
da mesma.
       De que forma procedem?
 Tudo  questo de Essncia e Forma. Sendo Deus Essncia, em Essncia se O
adora, sendo que em Forma, estudamos Suas manifestaes. Ningum formula por estas
plagas um gesto fsico, ou um cerimonial, pensando com isso ser til a Deus.
       A irm falou til propositadamente ou como modo de dizer?
 Lei  Deus, Lei somos ns, e como o adoraramos melhor? No creio v imaginar
precise Deus de nossos beatismos formais. Somos manifestao divina e, precisamente por via
disso, queremos ir nos integrando em Ela. As reunies tm por objetivo facilitar o exerccio
aproximativo entre Deus e ns, por meio de nossas foras prprias, que so o ser, o pensar, o
querer, o sentir e o agir. Nesta regio,  bom o saiba, medram os elementos que foram mui
burlados pelos formalismos clericais; era-lhes fcil deixar um irmo morrer na forma,
contanto que pudessem oferecer nos templos, um formalismo caro. Entre dar um pedao de
po ao semelhante e acender uma vela cara num altar, preferiam dar a vela cara ao altar. E o
resultado foi uma romagem pelos pases tenebrosos, por dezenas de anos. Agora, senhor
Janeiro, Deus  para todos ns, Essncia e no formalidade.
       Quem dirige a reunio religiosa?
 Qualquer cidado escolhido no momento. s vezes at uma menina ou um menino.
 to fcil, pois tudo consiste em pedir para orar. Depois, um conjunto coral canta hinos
belos, sendo bem acompanhado por timos instrumentistas. Depois, de novo, fecha-se com
orao a reunio; mas orao feita em silncio, cada qual a seu modo e gosto. Isto, porque
sabemos que tudo , ainda, segundo modo e gosto. O essencial  a pureza de inteno, da
    parte de cada um.
       E os estudos?
 Para isso, senhor Janeiro, temos conferncias, rdio, imprensa. Cada qual escreve,
fala, prega, estuda, assimila, ensina, sem ser ningum obrigado a aceitar, de mo beijada, o
quer que seja. Ningum d e nem pede exageradamente. Deus  Pai Comum e os irmos entre
si, tratam-se como tal. A hierarquia  espontaneamente respeitada, como v, por ser  base de
lei natural e no por conveno de homens. E a maior orao  o trabalho, o dever cumprido.
 Deveras... O cu ser ganho na terra... Sbia a Lei Suprema, oferecendo aos alunos
campo experimental ao infinito, para o desdobramento dos poderes latentes. No fosse certos
homens inventarem formalismo e crendices, a Revelao teria ensinado muito.
 Agora,  intercalou ela,  vo entendendo que o fito da encarnao de Jesus foi,
lanar de vez os fundamentos de uma doutrina de intercmbio entre os ditos vivos e os ditos
mortos, para que o CONHECIMENTO servisse de piloto ao viandante das brumas terrestres.
Em nome do Cristo, falam do BEM e tripudiam sobre a Revelao, quando o sentido justo 
pela Revelao alcanar o CONHECIMENTO e por este o BEM.
 Esplndido, Flora, o seu raciocnio. Agora compreendo o significado do Consolador
prometido por Jesus, como informante celestial. Antes, pensava apenas que a ida do Cristo 
carne, tinha por objetivo exemplificar o BEM, apenas. Agora  que vislumbro a inteligncia
dos trabalhos do Cristo Planetrio, que foi ir da causa para os efeitos.
 E ns,  acentuou Flora,  desta casa, trabalhamos todos em Centros Espritas.
Creio que o senhor ir fazer parte da comitiva.
       Deus o permita!
 Pois isso ter, tenho certeza,  foi sua ltima palavra, por ter de atender a um
chamado de Mariana.
      Em seguida, jovens acercaram-se de mim, depois de largarem seus instrumentos.
Pouco depois, aquele mensageiro que era filho de Mariana chegou, alegre, convidando-me a
acompanh-lo at o quarto de dormir. Despedi-me e fui deitar, dando graas a Deus por tudo
quanto tinha ocorrido nesse dia.
                           AO E NCONTRO DO MEU PAI

       Quando o sol matinal foi comeando a iluminar as terras de minha nova regio, j me
encontrava levantando e aguardando-lhe a sada triunfal, no cimo de uma elevao.  que 
hora de deitar, havia dito ao filho de Mariana, que Mauro se chama, das saudades que tinha
de ver uma aurora. No meu tempo de homem da carne, tudo fazia para poder satisfazer esse
prazer sublime, uma vez que o fosse em contato com a natura. E como Mauro tivesse falado
nas belezas panormicas de certos recantos da cidade, tendo-lhe eu revelado o desejo de ver
isso pela aurora, assim ficou combinado.
       Como tal, o sol encontrou-nos a postos, sobre um monte que se sobrepunha a uns vales
agrestes, j para o noroeste da cidade. Respirei o ar puro e ultra-oxigenado, lembrando-me
bem do tempo em que queria respirar e no tinha o que, a contento. Lembrei-me dos que l
ainda deviam estar. Meditei na Justia Suprema. E fiz clculos sobre o rigorismo filosfico de
Mariana.
       A concluso lgica, confrontando tais fatores com o fato de grandes prelados sofrerem
o peso das iniqidades, tambm, tive que aceitar a tese de que a Divina Justia no se move,
nem pelos extremos de louvaminhas, nem pela rudeza dolorosa dos negativismos criminosos.
A uns, quem sabe por via da hipocrisia; a outros, talvez por causa do desvirtuamento de
costumes. Ao certo, porm,  que a simplicidade falhando, tudo parece ter falhado como
merecimento. O advogado dos espritos  a simplicidade de conduta. Com ela tudo se observa,
tudo se aprende e se propaga. Sendo-se simples, tudo se pode aturar, tudo penetrar, de tudo
extrair vantagens imorredouras.  falta dessa virtude, tudo se torna duplicidade, qualquer
poder negativo toma conta do homem, prostrando-o  margem da Harmonia Universal.
        Quando uma dor, coletiva ou individual assalta; quando toma aspecto econmico ou
poltico, social ou quer seja, tudo quanto se deseja  volver  simplicidade. Em verdade, a
humanidade vive tacanhamente, tanto quanto lhe exigem os imperativos artificiais sobre os
quais se levanta h sculos a vida de relaes entre os homens e os povos. Os estatutos
sociais, as convenes humanas nada mais tm feito, que procurar tanger no homem e nas
coletividades, o direito natural de evoluo simples e gradativa, em todos os rumos desejados
e precisos. E  a que o cataclismo aparece; e  a que a estagnao forada estala seus
tentculos e se rebenta contra a rota progressiva. Depois de tudo serenado, de a fora
incoercvel do fenmeno revolver tudo, ento aparecem os apologistas da liberdade,
proclamando a necessidade de simplicidade, para que a evoluo se processe sem choques
violentos.
        Todavia, quando se libertar a humanidade dos grupos conchavistas, dos interesses de
portas fechadas? Se todos partem de um s Centro Gerador, se todos carecem dos mesmos
fundamentais bens para viver, onde est o direito de alguns sindicatos, no sentido de assaltar o
direito alheio em prol de suas sanhas?
       Encarando as matas belas e perfumosas dos vales fronteirios tinha eu a impresso de
que, embora a luta esteja estabelecida entre todos os reinos e planos do que vive, o homem
poderia viver muito melhor, conquanto contasse com um pouco mais de gosto pela
simplicidade, no estudar, no sentir e no viver a vida de relaes. Afinal, que dignidade pe o
homem no seu alcance intelectivo, que  quem o torna superior?
       Depois, num repente, surgia pela frente de minha imaginao a mim mesmo, tal como
tinha vivido, negador de Deus, de uma Divina Essncia. Que sindicato teria infludo sobre
mim? Os cleros anti-revelacionistas e dogmticos. E como temia o abismo que me separava do
passado! Eu havia sonhado, ou coisa parecida, vrias vezes, que era padre. Que tudo fazia por
um ritual convencionado por homens, enquanto me opunha a tudo que fosse progressivo em
matria religiosa. E o meu pensamento caa como no centro de um turbilho, do qual queria
safar-me a custo, sem saber como. Foi nesse momento que olhei para Mauro, tendo-o visto
com o olhar em mim fixo, como que me forando a qualquer coisa.
      Sorri, depois de encar-lo bem. Sorriu ele, tambm, tendo-me dito:
 Em verdade, Janeiro, voc colheu ontem o que semeou anteontem... Dentro da era
crist, voc foi um grande perseguidor do Cristianismo nascente, por via do intercmbio com
o plano astral, estabelecido por Jesus, na vida e no grande fenmeno do Pentecostes.
Perseguiu como quis para sustentar o ritual levtico. De modo algum poderia admitir que
outros conhecimentos fossem cabveis e precisos, para o desenvolvimento normal da
humanidade. E com isso preparou-se maus bocados para o porvir. A armadilha caiu sobre o
armador, caro Janeiro...
       Ento, amigo Mauro, os meus sonhos no eram ilusrios?
 Em verdade, no eram sonhos; voc estava, como est, no quadro de cuidados de
amigos servidores de nosso plano. Dali , que surgiram os sonhos, para voc. Sujeitmo-lo 
viso retrospectiva por vrias vezes, porque se aproximava o tempo de novos conhecimentos
em sua vida.
       Assim  que age a Suprema Justia...
 Naturalmente, amigo Janeiro; tudo por vias naturais, uns pelos outros para todos os
fins, para a paz ou a dor. E nem poderia ser de menos, uma vez que ningum erra sozinho.. .
       Que haver entre ns, por exemplo? De onde viemos?
       Primeiro, procure a seu pai; depois, tudo ir melhor.
 Onde estar? Enquanto estava no plano de sofrimento, pensava freqentemente em
meu pai e em minha me. Depois, tudo foi se apagando, se apagando de minha memria. ..
De nada valia pedir, clamar, esperar...
 A ningum ser dado, isto ou aquilo pela Justia Divina, pelo fato de ser irmo, pai,
filho, me, ou o quer seja, de Fulanos, Sicranos ou Beltranos; h um Supremo Princpio de
Justia e todos so iguais perante ele. Pela conduta pessoal no mbito da Lei, que  a ordem
Universal,  que cada qual receber. Para os mais, na medida em que juntos tenhamos errado,
nessa medida acertar-se-. Tal  o caso de um grupo de seres, que agora vo se encontrar,
nesta regio, a fim de um novo perodo de atividades, sondar o campo vasto da evoluo,
rumo queles elevados pncaros por Jesus testemunhados, em sua personalidade. Porque,
como j sabe, tudo  questo de ordem interna, de realizaes ntimas, sendo que para elas
no se vai por formalismos exteriores. Tal  o reino do cu.
      O belo sol banhava em luz aqueles esplendores verdejantes e floridos, fazendo
levantar-se uma nevoazinha tnue, deliciosa de ser respirada. E quis eu ter o prazer num
momento, de viver um pouco daqueles bens, sem a perturbao de idias outras. Por isso,
pedi a Mauro que nada mais dissesse sobre ns, no momento, pelo menos.
 De fato,  assuntou ele,  vamos sentir a Presena Divina em Sua prpria Obra,
como dizem certos espiritualistas do mundo.
       E no tm eles razo?
 Muita, pois, por bem ou por mal, quem negar um plano Manifesto e outro
Imanifesto da Divindade? E quando sair o homem desse quadro intelectual, para penetrar no
mago do Imanifesto, de modo integral? At que ponto atinge a conscincia humana com
relao ao Centro Gerador? A prpria intuio, a maior arma de penetrao do homem, a que
ponto chega?
 Tudo no homem  relativo, porque tudo no plano Manifesto o . Quem diria a mim,
no mundo carnal, que poderia chegar a estar, como morto, to vivo em face de uma to bela
paisagem agreste? Quem julgaria a diversidade de planos, de crenas, de gostos, de modos de
vida, de servios, nestas plagas da morte? Quando e por que razo, um ctico e s vezes
integral negador de Deus, iria conceber o encontro com outros tantos filhos de Deus, imortais
tambm, amigos ou inimigos do passado, para srios ajustes de contas, depois do tmulo?
      Mauro soltou uma gargalhada e disse, enquanto me convidava para ir descendo do alto
do monte:
 E voc no foi que disse, h pouco, para no falarmos mais nessas coisas, pelo
menos enquanto estivssemos aqui?
 Ora! Ora!... At para aqum do tmulo a vida  cheia de preocupaes; at parece
que a vida s existe para as preocupaes...
 E que seria a vida sem problemas?... cio? Estagnao? Nada? Mas, o nada no
pode existir... Logo, procuremos ter bons problemas...
        Uma maravilhosa forma de mulher, num repente, como que se materializou em nossa
frente. E pelo imprevisto, vendo, sentindo quem era, senti-me desfalecer. Era minha me! Em
carne e ossos, diria, se estivesse no mundo das formas. E, de um modo, no  isto que temos,
carne, ossos, msculos, tendes, tudo enfim, embora em grau sublimado? E se a lei dos
extratos no fosse um fato, como se viria em subida progressiva, dos planos inferiores da
vida, para os esplendores consciencionais? Existindo as hierarquias espirituais, por que
falharia o correspondente no plano material? E no conhecendo o homem tudo no plano
material, por que duvidar das verdades do mundo espiritual? Afinal, que sabe o homem do
Comeo ou do Fim de tudo? E haver mesmo Comeo e Fim?
       De minha parte, hoje, montado sobre o corcel da vida, que galopeia livre e feliz pelas
dunas de mundos sem fim, s poderei afirmar que tudo  vida por princpio, nunca podendo
haver morte de fato. Poder ela baixar ou subir em expresses, atravs de seu infinito poder
de manifestaes; mas vida  vida. E que diria de glrias tais, se a mente do homem carnal
no lhes suportaria, nem intuitivamente, as profundezas de sentido?
      Todavia, todos um dia repetiro comigo estas coisas, porque tudo  Um em Deus e em
Sua Glria. Eis porque, amigos, os problemas da vida so divinais mesmo ao medrarem por
tremendos abismos. Levanta-se deles e, tangidos por ntima fora, investe-se de novo rumo s
glorias sem fim. Por isso, deixemos a uns, que outros mais altos e mais dignos nos merecem!
Afinal, no somos filhos da Luz, da Inteligncia, do Amor, da Justia?
       Pois bem! Parti, sim, mas no colo, nos braos de minha me, tal como quando era
criancinha! Eu, para ela, assim me disse, fui sempre um fardo por demais leve e gracioso.
Assim so essas mes!... E se Deus assim as fez, por acaso estar errado? E se fez, por que
fez? Sendo certo que todos somos pais, mes, irmos, que  a vida, a existncia, sem ser
escolha de Amor?
                          EM CONTATO COM MEU PAI

        Em frao de minuto estava de novo ao lado de Mariana, na companhia de minha me
e Mauro. A alegria que sentia, por to grato acontecimento, ia para alm do que me parecia
fcil suportar. Neste pas de morte, coisas do-se, muitas vezes, inesperadamente,
pujantemente, como que nos forando a desdobramentos ntimos fantsticos. Creio que tudo
isto j esteja no plano dos dirigentes, por ser da Suprema Vontade. Deve ser para o despertar
histrico, para que o esprito se v compenetrando de si mesmo, a contar das profundezas de
seus dias. Cada um de ns tem j o seu passado e, sem o seu concurso, quem poderia bem
marchar para a frente? Afinal, o certo  um movimentado eterno presente; mas, sem trocar tal
eterno presente por mido, por frao, por relativismo, quem agiria? No somos j
relatividade, por injuno do Absoluto?
 por isso que, tendo encontrado estranheza no mundo espiritual, em seus ddalos
relativistas, nem por isso deixei de imaginar, que ele assim seria, sem o meu nulo beneplcito.
Sim, amigos; ao deixar o esprito o seu corpo fsico, e o seu habitat d o maer l o d o
it    t ia, n e s
 r u ifer c is            eta u o g essa el em u mu d , o d o mesmo g a s
g a s d en ia pen r m t d , in r                   e       m      no ne s              s ru
 ifer c is          l ipl a o fin o
d en ia se mut ic m a in it !
       Existem na crosta continentes, pases, regies, mares, rios; cidades, vilas, casas,
casebres; noite e dia; gente s, gente doente, gente feliz, gente infeliz; altos e baixos, em
todos os sentidos, para todos os efeitos, tudo coordenado em torno a um Supremo Eu, para
fim de Justia, Movimento e Evoluo? Pois se  assim por essas bandas da vida, se tudo se
move progressivamente, paulatinamente, rumo  perfectibilidade predestinada, ningum crie
em si complicados raciocnios, falsas concepes, quimeras, a respeito deste lado da vida,
porque o relativismo em tudo est, a como aqui, para a todos facilitar meios e compreenses
necessrios.
      Em dado momento, minha me disse a Mariana:
 Marcharo dentro de dias para a reencarnao, dois de nossos bons trabalhadores;
quero que meu filho tome o lugar de um deles, sendo que Simo ser o substituto do outro.
H determinismo nesse sentido, havendo necessidade de executarmos o mandato, o quanto
antes. Por isso, julgo melhor irmos j em busca de meu esposo.
       De novo, um mundo de idias, invadiram- me a mente, precipitadamente. Simo, o
amigo que havia ficado esperanoso no posto de socorro, ia mesmo ser chamado. Que sorte de
liames nos prenderia? Que fios materialmente invisveis nos uniria? Que sorte de poder moral
nos atava a todos? De onde vnhamos ns? Contudo, j me sentia capaz de confiar em tudo e
em todos, sabendo que em poderosas foras assentam-se todos os destinos. Por tal razo, nada
disse, aguardando que tudo se encaminhasse, segundo aqueles grandes coraes julgassem
mais acertado.
       De fato, em pouco estvamos em viagem. Como ningum quis dizer onde estivesse
meu pai, de mim, tambm, nada indaguei. O que sei  que tomvamos o caminho dos
abismos. Primeiro, em volio; depois, cuidadosamente, a p, todos de braos ou de mos
dadas, para em caso de assalto das falanges rebeldes, apelar para o poder do pensamento e da
vontade, e pr-nos a salvo. E descamos por caminhos de mim desconhecidos, mas que
deveriam ser conhecidos de outros presentes. Um novo irmo havia se juntado a ns, num
posto determinado. Parece que ele sabia bem sobre tudo aquilo.
       Em certo lugar, estacamos. E ficamos  escuta. Escurido e lamentos, gritos e apelos,
blasfmias e gargalhadas horrveis, vinham de um dos lados, do lado mais escuro. Um fedor
quase insuportvel havia ali. Parecia sair do prprio cho. E foi ento que, minha me,
segredando algo ao homem, que eu no pude ouvir, deixou-nos e se foi, descendo, descendo,
at sumir na penumbra escura e fedorenta, juncada de uivos, lamentos e blasfmias.
       Pouco tempo passou-se e estava de volta, trazendo consigo um vulto qualquer, todo
enrolado, como se fosse uma grande bola de panos velhos. Como sabia que devia ser meu pai,
fiz por auxili-la; mas fui observado, baixinho, para que sustentasse um bom pensamento e
conduta serena.
 No pretenda ensinar  Justia Divina o que seja Justia, meu filho.
       Depois de um convite a uma orao, fomos subindo, devagarinho, auscultando, ora
aqui, ora acol, at sairmos do pior lugar. E pude ver, de relance, os traos da fisionomia de
meu pai, perdidos num misto de barbas e lama. Seu corpo mal estava coberto por trapos
fedorentos. E no deu para mais, porque a caravana se ps em marcha.
       Atingimos um posto, aquele mesmo onde apanhamos o tal irmo de que j falei; e foi
ali que pude ver melhor a meu pai. Francamente, nunca pensei que em tais borrascas se
metesse. Como viveu ele bem mais do que eu, no sabia de seus feitos, para tal merecer.
Agora sei; negar Deus foi um mal, ensinar a negar foi pior, e praticar certos outros atos de
deslealdade para com minha me amigos, tudo concorreu para um tal fim. Todo caso,
ningum  alheio  Justia Divina. Ela pe e tira, sem rodeios e nem senes, absolutamente
infensa s injunes do convencionalismo humano. O reino do cu  um princpio de essncia
e no um jogo de rtulos. Todo o verniz humano, todo o exteriorismo social, que poderiam
contra um tal transcendente princpio de lei?
        Seja como for, porm, meu pai ali estava e, para mim, seu modo de estar torturava-me
profundamente. Tinha sido um bom pai, pelo menos at onde eu sabia e pensava. Tinha, pois,
vontade de fazer por ele qualquer coisa; mas de que forma, com que elementos, se outros que
ali estavam, bem mais evolvidos, mantinham uma calma superior, ostentando rostos alegres?
Talvez por pensar, por sentir, ou por qualquer outra razo, minha me a mim dirigindo-se,
disse confortante:
 Optar pelo menor mal j  ser prudente; este quadro poder no ser agradvel de ser
visto neste momento, mas, sem ele, como o teramos maravilhoso dentro de alguns meses?
Como teramos as vantagens dos bens profundos, sem as elaboraes precisas? H alguma
coisa de visvel, que ostente valor apreciativo, seja no sentido que for, que no tenha custado
mil problemas por resolver?
 Minha me, compreendo o que quer dizer; acima de tudo, sinto que Deus  Perfeito
em todos os sentidos, e, no teria sido para com meu pai o Seu primeiro engano. Como
ignoro as causas, abstenho-me de comentar os efeitos.
      Minha me sorriu satisfeita, olhou-me com ternura e emendou:
 De minha parte, que sei um pouco das causas, afirmo que os efeitos so de todo
judiciosos; quem nos arrebatar o inferno construdo internamente, com tanto afinco e ardor?
Que mais bela prova nos daria o Amor de Deus, do que nos ofertando o direito de possuir o
construdo?
       Enquanto minha me falava-me, outros impunham sobre meu pai suas mos, mantendo
um pensamento concentrado. Era uma operao energtica em boa escala. E meu pai iniciava
momentos faciais indelveis. Em pouco, distendia as pernas, esforava-se por movimentar os
braos, contorcia-se todo, como quem despertasse de longo e profundo sono. Os irmos, por
sua vez, prosseguiam firmes em seus propsitos benfazejos. E quando pde meu pai abrir os
olhos, vi que estavam congestionados, vermelhos, comportando em seu vago poder
expressivo, evidncia de dores lancinantes recalcadas. Era como algum que j nufrago
perdido se julgasse, levando estampada na face, a imagem dolorosa que no cadver se
revelaria inconfundvel. Tive, de novo, vontade de atirar-me sobre ele, cham-lo, faz-lo
sentir o mais depressa que ali estvamos, que dias melhores o aguardavam, que a sua esposa
estava por ele fazendo o possvel e melhor. Mas, minha me me deteve, dizendo-me:
 Filho, procure saber comportar-se. Dentro em breve estar agindo em prol de
encarnados sofrveis, sendo necessrio apelar para toda a possibilidade de segurana. Sem
calma, sem nervos controlveis, como poderia oferecer tais servios? A serenidade  uma
conquista do esprito,  um capital capaz de ser posto a prova, em mltiplos empregos, sem
nunca desdourar nem falir em seus intentos.
 Mas ele  meu pai...  respondi, querendo justificar minha atitude mental, apenas
mental.
 E minha boa, minha santa me, terminou com minhas razes, dizendo com toda a
serenidade imaginvel:
 E aqueles que foram por ele feridos, acaso no eram pais, filhos, esposas, irms
etc.? Ento, filho, havemos de querer justia s para ns?
 Tendes razo...  tornei, arrependido, curvando a cabea sobre o peito.
 Levanta a cabea, filho, que todos os problemas o so da vida. Sendo, pois, ela, a
razo-de-ser de tudo, como e por que dever curvar-se ao mnimo? Ou iremos proceder como
os hipernervosos que, em suas angstias ntimas pretendem ser o fim do mundo no mais
comezinho acontecimento?
        Ao cabo de minutos mais, meu pai pronunciava uns monosslabos. Quisemos verificar
a inteligncia dos mesmos. E notamos que estava em seu juzo; mas, completamente afastado
da realidade. Referia-se a coisas do mundo material. Foi ento que minha me falou,
chamando-o pelo nome, vrias vezes. Isso bastou para que uma nova fora nele despertasse.
Como enxergava pouqussimo, girava a cabea de modo a que o som emitido por minha me,
lhe apanhasse o tmpano em cheio, facilitando-lhe melhor observao intelectual. Assim que
se apercebeu da voz que to cara lhe devera ser, lanou os braos na direo de onde sabia
vir, chamando com sofreguido:
 Anglica!... Anglica!... s tu? Meu Deus!... Onde ests?!...
      Minha me lhe dera as mos. De seus olhos rolavam lgrimas em quantidade. E os dois
esposos por alguns instantes permaneceram em palestra elucidativa. Minha me lhe disse, tudo
aquilo que em to curto lapso de tempo lhe fora possvel dizer. Depois, disse-lhe de minha
presena ali. E meu pai, que me vira no mundo como um cadver, pois desencarnara eu muito
antes dele, estremeceu ao ouvir dizer que eu ali estava. Por fim, disse, indagando de minha
me:
       E Deus no quer que ele fale comigo?...
        Suas palavras pareceram conter um profundo e cortante pesar, razo pela qual sobre ele
me atirei, abraando-o, beijando-o, dizendo-lhe tudo o que me ia na alma consternada e
agradecida. Apesar de me ter ensinado a negar a Deus, para mim fora um excelente pai; e se a
cada um cumpre ter segundo as obras, segundo como se auto-aplique moral e
intelectualmente, porque no procurei eu mesmo, por mim, sondar um tal problema? No
negaria de modo algum a influncia estranha sobre a organizao do carter humano; mas o
que for possvel de relatividade, tanto poder ser contado pr como contra, quer ao que influi,
quer ao que  influenciado. A obrigao  cada qual pensar com o seu prprio crebro! O
dever  ningum ser a negao do valor inteligente da espcie! E o pai que eu tinha ali, era o
homem que havia falado contra a existncia de Deus, mas, como todos os outros negadores do
universo  sem nunca provar nada! E por que deveria eu crer em tanta falta de provas? Em
favor de um Princpio do Todo, temos a prova da Criao, prova inconcussa, eloqente ao
infinito; mas, em favor da negao, do atesmo, do nada, que temos?
       Por tais e to simples elucubraes, eu mesmo devera descobrir que meu pai, nem por
si mesmo poderia provar o que me afirmava, quanto mais faz-lo por mim. Logo, o que fiz
foi adorar um diabo por mim mesmo inventado. Como poderia contra um tal inimigo? E por
que atirar sobre meu pai a minha culpa? E assim, creio, tero de vir a pensar um dia, todos
aqueles que quiserem, de um modo geral, imputar a segundos e terceiros o peso de suas
culpas. Naturalmente, respiramos todos do mesmo ar; mas, no  certo que cada qual respira
por si? Assim mesmo, portanto, somos diretamente responsveis pelo modo como encaramos
os problemas fundamentais da vida, como vemos e ouvimos, aceitamos ou negamos.
       Sem dvida, sei ter sofrido a culpa de ter ensinado o atesmo. Sem dvida, sei ter
sofrido a culpa de ter sido desta pelo prisma fantico de um moisasta arrebatado, perseguidor
e assassino. Sem dvida, a felicidade est no equilbrio, na ponderao, no meio termo, pois
nem o negador eliminaria a Deus, nem o crente poderia modificar-lhe a essncia. Para mim,
mais vale saber um pouco do que crer muito! E saber um pouco  fcil, porque toda obra
testemunha um autor, seja l ele como for, esteja onde estiver, tenha feito como tenha
entendido ou podido a sua obra! Tal , agora, a minha concepo.
        E como a chamada Criao cresceu de monta com a desencarnao e o esclarecimento
no devido tempo, fao do saber o altar e do agir bem a oferenda. Eis minha religio, no
presente. De futuro, espero aumentar-me em tais oblatas.
       Depois daquele dia, em que me encontrei pela primeira vez com meu pai, quando fora
recolhido do seu exlio ressarcitivo, muitas coisas mais se deram, pois que dois anos faz. Dois
anos, sim, com seus dias, suas noites, e todos os atributos concernentes, uma vez que a ordem
csmica impera por estas bandas da vida, pelo menos at onde conheo.
       Meu pai fora recolhido a uma das muitas casas de reparao. Disso no passam e nem
 preciso que passem, uma vez que s e nada mais, reparam espiritualmente, moralmente,
mentalmente, intelectualmente, e, materialmente em sua natureza essencial. E no se diga que
comea do mais material para mais espiritual; em tudo h interpenetrao de valores, embora
a variao  base de porcentagem, seja um fato indiscutvel.  processo reparador, em geral e
relativo, aquilo a que  submisso o esprito, quando atirado aos antros abismais, sejam eles de
que condies forem. Condies, sim, porque as formas de purgao variam ao infinito e para
todos os efeitos. A complexidade da vida aqui aumenta de muito, sendo que o mecanismo da
Suprema Justia, ganha foros indescritveis, penetrando as gamas mais ntimas do ser, pela
cronologia dos feitos, desde os mais remotos dias de sua histria consciencional.
        Digo consciencional, porque nada sei de quem tenha tido de enfrentar, a menor ao
praticada como inconsciente, como animal inferior; do mesmo modo, j reconheci casos
tremendos e positivos, em que o esprito encarnou, levando no seu pr-traado programa, o
ressarcir faltas cometidas a mais de quinze mil anos antes da encarnao do Cristo Planetrio.
E eu estive presente a isso, por deferncia de amigos de minha me, espritos de alto coturno
evolutivo, que como despenseiros dos bens divinos, controlam o movimento dos que lhe so
afetos.
       Eu vi, a um tal esprito, ser colocado frente a uma cmara de viso retrospectiva, uma
mquina fenomenal, e ser a sua histria revivida, at alcanar aquela encarnao. Foi ela,
depois, focalizada em suas mincias, para efeito de elaborao de programa, gradativo em
suas contnuas e espaadas contingncias, tal como acontecem acidentes na vida de todos,
servindo de provas uns, de expiaes outros etc. E no pensem que foi um espiritozinho
qualquer, um algum que ainda medre pelo plano do homem mdio, do tipo padro. Foi um
dos grandes vultos da histria religiosa do Planeta, um dos mais conhecidos mestres de todos
os tempos e lugares, um vulto que jamais ser banido da histria terrcola.
       E um dos grandes vultos presentes, verdadeiro filtro do Supremo Chefe Planetrio,
considerou com simplicidade. Digo com simplicidade, porque aquilo que faria arder os miolos
de um cidado encarnado, sem chegar a fim seguro algum,  por eles tratado, como se fosse a
coisa mais comezinha da vida. Elaborao de programa, feliz ou desgraado, para prmio de
boas ou ms aes, para um indivduo ou para toda a humanidade que seja, qualquer coisa
ser estudada e aplicada, sem a menor discrepncia de qualquer ordem. E ele disse, frente ao
mapa de responsabilidades do grande irmo focalizado:
 Assim como se portar o ser para com os seus irmos, assim se portar para com ele
a Justia Divina. Nem um s ceitil da Lei deixar de se cumprir, tal  a disposio intrnseca
da prpria Lei. No esprito grava- se a histria de suas aes, o peso moral de suas obras,
aquilo que, mais tarde ou mais cedo, ter de ser revisado, integralmente.
      E um outro, que bem se sabia sentir, era-lhe menor em tamanho hierrquico, emendou
em seguida, lastimoso, assim como quem considera seus prprios erros:
 E os comercialistas clericais, que prossigam forjando truques e prerrogativas
absolventes.
       E eu imaginei em meus dias de antanho, quando no tempo da passagem de Jesus pelas
vielas da carne; senti um calafrio perpassar todo o meu corpo, substancial relativamente a
outros graus dimensrios, mas rijo para mim. Revi mentalmente minhas aes nefandas,
beleguim de um fanatismo cruel, que era exercitado em nome de Deus! Revi-me ofertando
carnes e sangues, tendo tudo isso de crimes em conta de oblatas  custa das quais, viria a
merecer o direito e o poder para eliminar do cenrio humano Aquele Excelso Filho, que por
suas provas evolutivas, elaboradas no turbilho das duras e normais provas, pelos mundos
siderais, ali estava, manso e humilde, piedoso e sofrido, aguardando da conscincia poluda
dos irmos menores... a cruel recompensa.
       Eu tinha visto, no mapa histrico do tal mestre, a personagem por ele vivida, de
estipulador de tais falsas oblatas. Se nem tudo o que hoje os homens manuseiam  do punho
do autor atribudo, nem por isso deixou ele de ser o responsvel direto pelo esprito do erro. E
ele, volveria  carne, por aqueles prximos dias, para em servindo  Causa do Cristo, nos
servios de restaurao do Consolador, de permeio, reparar faltas mui anteriormente
contradas, nos tempos da civilizao atlante.
       Que meditem os meus amigos no que digo, com simplicidade, para que de suas aes
no surjam dores para o prximo. Principalmente, se esse tal prximo for do estofo de um
verdadeiro Mestre, porque, ento, o peso do crime atingir cumes fantsticos. Pecar contra a
Virtude  doloroso feito! E como saber o homem, ao certo, onde estar ou no escondido o
virtuoso ou o vicioso, depois de ambos se acharem mergulhados num corpo denso? Por isso,
sem desprezar o dever de anlise comparativa, para efeito de classificao de mritos e
valores, digo que o melhor  cultivar aquele amor, aquela tolerncia, aquela resignao, tudo
aquilo de virtudes de que deu cabal exemplo o prprio Cristo.
       Eu disse, atrs, que o Cristo no veio para inverter valores, exigindo primeiramente o
acerto total e, secundariamente, o culto do Consolador, da Revelao interplanos; afirmo o
que disse antes, que ao Consolador cumprir enveredar o homem, terica e praticamente,
rumo aos seus mais precisos conhecimentos. Pretender que se encare a Jesus como um
exemplificador moral, apenas,  tirar-lhe o mrito da funo vivida, por Deus outorgada, de
revelador da Revelao tornada pblica, do batismo de Esprito Santo. Tornar o homem
conhecedor, tal e simplesmente  o dever do Consolador. As realizaes de ordem moral, isso
 l com o prprio homem, sendo de seu direito inato, ser absoluto responsvel, segundo
como vir a saber e praticar.
        Por isso mesmo, tendo sido o Consolador barrado pelo romanismo, no quarto sculo da
era Crist, ao tempo do imperador Constantino, com isso barrou-se ao homem o direito de
inteirar-se de sublimes conhecimentos. Tudo isso tendo sido por Jesus profetizado, aconteceu,
assim como do sculo quatorze para c, est sendo trabalhada a restaurao do Consolador.
       O segundo captulo do Livro dos Atos dos Apstolos; os captulos doze e quatorze da
primeira carta de Paulo aos Corintos; e, A Doutrina Esprita, bem testemunham um s
programa elucidativo, tendo por centro de gravidade, o intercmbio entre os planos da carne e
do aqum da carne. E como o programa restaurador objetiva um tal relativo informe, que
abranger ainda um sculo, a contar do meado do sculo vinte, eis que cumprir a todos os
homens de boa vontade, estudar com serenidade, com simplicidade, colocando o bom senso
acima dos interesses subalternos, desses que tudo fazem por cristalizar princpios, desses que
da rotina fazem meio de vida, campo vasto para as exploraes mais vis. O Espiritismo jamais
dever servir de meio de vida a quem quer, seja a pretexto do que for, tal  o que afirmo, em
s razo. Isso, materialmente falando.
        Moralmente falando, o Espiritismo abarca todos os quadrantes de moral j conhecidos,
relativamente expostos no curso de todos os tempos. Mental e intelectualmente, fornece
elementos para todos os graus de intensidade assimilativa. Filosfica e cientificamente, do
mesmo modo, pois impe-se por graus incontveis, favorecendo a uns e a outros, imensos
campos de pesquisa. No obstante, por causa dos vcios mentais e de certos erros recalcados,
ele mesmo que carreia em si os elementos todos de poder unificador dos credos, far um
grande servio de desunio, de desagregao, de revoluo. No entanto, como o escndalo
no poder deixar de se fazer intrometido nos movimentos sociais em geral, aquele que por
ser dono de igrejinhas que tais, o provocador, esse mesmo responder por tudo o que de
prejuzos causar  Causa do Senhor, sem que um s ceitil lhe venha a ser esquecido. Disto, se
no olvide cidado algum, diga-se ou pense-se o que bem quiser. As chaves da Suprema
Justia, no andam nas mos de mercenrios quaisquer, por se poderem arrogar estes, ttulos
que tais.
        Ningum  ministro de Deus, menos que cumpra seu dever. O dever  segundo as leis
da prpria vida. No, porm, segundo os conchavismos de qualquer matiz, de religiosismos
estes ou aqueles. Portanto, aparecendo no vasto painel espiritista, como no poderia deixar de
ser, estas ou aquelas prerrogativas ou afirmaes, ningum dever julgar segundo convenes
apriorsticas, mas, sim, segundo a melhor lgica possvel, o maior liberalismo so. Nenhum
homem, j ficou dito na mensagem " CONSOLADOR, O UNIFICADOR RELIGIOSO" ,
precisar de inventar a Verdade! O dever do cidado do universo , e nada mais, concertar-se
com a Ordem Universal! Eis o programa divino, tal como  traado ao homem. Fora disso, s
a dor ter por recompensa.
        E no  porque desmanche algo do que  pela Suprema Vontade;  porque prejudica o
bem de segundos e terceiros, de coletividades inteiras! E isso, amigos, vem a custar bem caro,
muito caro. Entre o homem e as leis, ningum est, sem ser o prprio homem. Quem, pois,
ficaria responsvel, sem ser ele mesmo?
        Enquanto homem do mundo, vivendo com minha mscara convencional, tinha o hbito
de atribuir minhas dores, minhas decepes, aos outros. Hoje, que sei o que sei, das vidas
sucessivas, dos feitos bons e ruins, das imensas responsabilidades assumidas, digo que s de
uma coisa me lamento  de ter truncado, com minhas atitudes, com meus ensinos, com meus
fetichismos moisastas e etc. o progresso de milhares e milhares de irmos! Santo Deus! Como
esta rememorao me aterroriza! D-me, Senhor, oportunidade de reparar tamanhas faltas!. ..
                          VARIAES DE TODA ORDEM

        Que coisa tremendamente importante  a escala hierrquica dos seres! Que coisa
sublime  o estudo das diferenciais psquicas! Como  singular em vida e sensaes, um grau
esttico, embora esteja ele em relao direta com os seus imediatos abaixo e acima, alm de
ser influenciado por mirades de outros e outros!
       Na vida de homem do mundo, j no julgava eu que a vida fosse igual para todos, em
suas caractersticas emotivas. Cada qual a sente, segundo seu grau de evoluo, seu modo de
educao, seus gostos mais pessoais. Aqui, como tudo pode se multiplicar ao infinito, para
baixo e para cima, para o bem e para o mal, ento, o campo torna-se maravilhosamente
divinal.
        Conheo criaturas, por com elas lidar, de toda ordem relativa, a quem como eu tem de
agir em contato com muitos, por ser trabalhador espiritista. De entre os mais elevados mestres
do espao, aos mais abismados elementos que vivem nos planos da carne, diferenas quase
totais subsistem! Quase, imaginemos bem, uma vez que todos os graus se ligam por um liame
fundamental, cuja profundeza ultrapassa a capacidade de concepo de quantos conheo.
Porm, assim  da escola da vida. Toda essa diversidade, uma tal complexidade, nada mais
testemunha do que a grandiosidade infinita da Obra Divina, e, os meios utilizados pelo Senhor
Supremo, como escola franca a Seus filhos.
       Os homens, as mulheres, os moos e as moas, os justos e os injustos, os sbios e os
ignorantes, os ricos e os pobres, os crentes e os descrentes, todos iro, a seu turno, bater s
portas do Consolador, tal como j funciona na terra. E se encarnados passam como bons os
ruins, e como ruins os bons, por lhes faltar os poderes de penetrao, outra coisa  o que se
d de nossa parte, o que se passa de nosso lado.
       Aqui, tambm, o Consolador  buscado por falanges de falanges, principalmente pelas
de baixo padro hierrquico, em vista das necessidades prementes de melhora, em todos os
sentidos.  Deus, em Sua sabedoria, servindo os espritos pelo esprito. E como se portam
mal umas tantas criaturas! Como so rebeldes certas falanges! Que coisas fariam, caso
pudessem! Amigo leitor, quando tu para aqui mudares, com armas e bagagens, ters de sentir
o peso ou a leveza das mesmas de um modo to real, to simplesmente real, tal como se fora a
coisa mais corriqueira da vida cotidiana a da carne. E por isso mesmo, tu aprenders a medir
tudo, todos os atos, do ponto-de-vista espiritual, sem confundir o esprito com a matria, mas,
tambm, a solucionar os problemas, segundo o prisma da melhor anlise, que  no confundir
entre natureza essencial e organizao de carter.
        O santo, muitas vezes, est forrado pelo devasso! O filho de Deus, por involuo,
parece filho da treva! E voc ter de ver como procedem os grandes mentores, aqueles nas
costas de quem, pesam obrigaes administrativas de grande alcance e tremenda
responsabilidade. Dir-se-ia, se no estivesse a sociedade astral organizada por partes, por
zonas, por graus, por esferas, ser impossvel ajuizar sobre a ordem reinante. O emprego da
Justia, para muitos efeitos,  segundo o sistema terrcola, produto de leis sociais organizadas
pelos mentores. O que quero dizer, no  que tenha sido inventado a ou aqui, nem para
favorecer a quem quer, da ou daqui, como o fazem muitos dos que daqui do notcias a,
empanturrando tudo de um parcialismo cabotino, como se isto fosse viver e a morrer, como
se aqui tivssemos inteligncia e a negao da mesma.
       Digo e afirmo que, bom ou mau carter, sabedoria ou ignorncia, nunca foram
privilgio de quem quer, da ou daqui. Medram a vultos nobres, belas celebraes,
sentimentos celestializados, ao lado de tantas mazelas, tal como aqui, tomando-se os planos
em conjunto. E para gudio dos encarnados, afirmo sem o menor receio, que aqui no h um
s bem-aventurado, que no tivesse forjado tal estado no plano da carne! Eis o valor da vida
na matria. Prezai-vos, pois, porque tal  a disposio divina para convosco. Respeitai vossas
belas condies, j que ningum a est, que tenha ido sem graves compromissos! No vos
confundais, amigos meus, porque a confuso traz o inferno interior, a treva mais dolorosa!
        Um dia destes recebemos ordem de abandonar um Centro Esprita, pelo simples fato de
terem os seus dirigentes, aceito o alvitre de um esprito fetichista, desses que se dizem
" pai" isto e " pai" aquilo, recomendando prticas tais e quais, coisas pouco evanglicas e
sempre medocres, tais como formalismos advindos com ele, dos inferiorismos clericais e
fetichistas a da carne, e aqui muito cultivados nas zonas inferiores. Os dirigentes, que foram
provados, ao invs de instrurem ao pobre irmo, negando-se a obedec-lo, prontificaram-se a
seguir-lhe o conselho. Como resultado, recebemos ordem de retirada para que os mesmos
fiquem com os que escolheram por achar melhor.
       Nisso, houve prova para muitos, e um dia, haver recompensa justa. Assim  o
programa de instruo. Dado isso, previno a quantos tenham inteligncia de entender, pois
nem tudo o que vem em nome do Senhor,  mesmo do Senhor. Quase todos os grandes crimes
da histria, foram praticados em nome do Senhor, isso o sabeis muito bem. E o fato de terdes
hoje,  vontade, o Consolador por cultivar, no significa que vos tenhais identificado
cabalmente com sua melhor expresso, em conhecimentos e em emprego de valores. Homens
de todos os matizes, daqui e da, exercitam o culto do mediunismo; isto quer dizer, sem
dvida, que os mritos do exerccio, variam ao infinito. Nada, porm, temos ainda de
totalmente perfeito!
       No, quero dizer, de modo algum, sejam tais mentalidades, desencarnadas, ruins ou
francamente perversas, destitudas de boas qualidades. Quero dizer que, ao lado do que podem
ensinar, muito falta para bons aprendizados. E se os encarnados agissem com um pouco mais
de prudncia, haveria melhores possibilidades para todos, principalmente para tais pretensos
" pais" , que vivem em ambientes doutrinariamente frouxos, forando conscincias, fazendo
estrepolias,  custa do emprego de elementos, de leis, de meios, pouco evanglicos. No
quero tirar a ningum o direito de liberdade de ao; mas afirmo que muitos de tais " pais" ,
nada mais so do que filhos impudicos, ainda, Daquele Senhor que para outros fins conferiu
virtudes. E que muitos dos seus seguidores, deste lado, vieram a se achar mal, sendo que
muitos, apesar de cultores do mediunismo, perderam na parada, ao invs de ganhar. Tudo,
pois, no mundo das relatividades, deve obedecer ao ideal de progressividade, rumo ao melhor,
custe o que custar.
      Vejam pois, bem intencionados do mundo, um espetculo como este: homens titulados,
mdicos, engenheiros, altos funcionrios; moas, moos, matronas e homens encanecidos, em
pleno bacanal candomblista, pedindo servios que tais a que tais espritos em troca de fumo,
doces, bebidas, de que os mesmo se apoderam por meio da interpenetrao dos corpos
fludicos, tudo em meio a danas sensuais, meneios menos dignos, fumaas e fludos
repelentes. Esse, amigos, o Espiritismo apresentado pelo Cristo no Pentecoste, ou aquele
exposto na Codificao?
        Tudo  passvel de aprimoramento ou corrupo, por parte do homem e no setor que
lhe seja afeto, pelo cunho de relatividade. Neste caso, amigos, cumpre-vos policiar o exerccio
medinico. Conhecer, at mesmo todas as verdades fundamentais ou essenciais, nada
representa como valor de fato; o mrito vem da melhor prtica. Em tudo, de qualquer forma,
devem prevalecer o ser, a simplicidade e a produtibilidade. A primeira condio independe de
ns; mas para ser simples e produtivos, temos de lanar mos dos inconfundveis valores
ntimos. Eles so por conhecer, por sentir, por viver. E a conseqncia lgica, 
responsabilidade definida perante a Suprema Lei, que do mais profundo do eu se manifesta.
        Assim foi que comigo se deu; assim  que sei se passa com outros, ressalvadas as
variantes formas e modalidades de purgao. Na essncia, porm, ningum toma do esprito,
pela mo ou pela orelha, para conduzi-lo ao lugar de suplcio.  o prprio esprito, em
verdade, quem se prepara para toda e qualquer finalidade. E  por isso, mais uma vez, que
quero protestar contra toda essa saraivada de louvaminhas melosas, nauseantes, que os
clericalismos do mundo ensinam, e com as quais pretendem alcanar os favores de Cristo, dos
mestres e lderes de todos os tempos, lugares e matizes.
       Cada qual  um templo da Verdade que livra; basta se torne um templo limpo, para ser
por si mesmo livre, sem o favor de ningum, mas com o direito de solidariedade de todos os
coraes nobres. Nem favor faz quem cultivando o Bem e a Cincia se libera, nem tampouco
o faz quem, como superior, ensina o que  de sua obrigao.
       As religies mandam adorar, por formalismos e cantilenas laudatrias; a Suprema
Justia pede obras decentes, cumprimento do dever, solidariedade humana! E para quando
quereis deixar o abrir os olhos e enxergar por vs mesmos? At onde quereis ir, falando nos
mais puros e cultivando a impureza? Quando deixareis de exaltar tanto a uns e outros, para
dedicar-vos mais ao culto dos sagrados patrimnios internos? Por que viveis cuidando tanto da
iluminao dos templos exteriores, por atos formais, por gabaes a feitos alheios, por
louvaminhas a uns e a outros, deixando s escuras, sem brilho, sem cultivo, os vossos
prprios valores? Quem possui, amigos, por natureza, mais dons que vs, que ns? E se a
diferena  cultivar ou no, por que andais levantando louvores aos ditos santos, aos
chamados bons, enquanto deixais vossos altares ntimos sem luz, sem confiana prpria, sem
prticas divinais? De que valem louvores a estes ou queles? Por acaso, amigos, isso vos
desculpar perante a Lei?
       Se louvaminhas valessem, Cristo no teria abraado a necessidade de sacrifcio prprio!
Se exaltaes libertassem, no teria dito o toma a tua cruz e segue-me! Se cantilenas fizessem
tais prodgios libertadores, no teria prostrado os que adoram com a boca! Enfim, amigos,
ningum encara, por aqui, com respeito, vossas curvaes, vossas laudatrias, vossos rituais,
vossas sebosas e falsas adoraes! Eis a verdade, ainda que vos no calhe bem; estais por
ingressar em grau cclico superior, e, outra conta vos ser pedida.  uma conta que abandona
exteriorismos e adoraes falazes, por prezar o culto do amor fraterno. O tempo, pois, que
haveria de gastar em louvar aos vossos santos de todos os matizes, gastai-o em amar-vos uns
aos outros, por vos sentirdes a todos como filhos da Vida, do Amor e da Justia! Quem
precisa, de fato, das vossas adoraes sinceras, sois vs mesmos, uns para com os outros.
      Da parte de Deus, do Cristo, dos santos, no penseis seno isto  que no se
movero,  custa de vossos formalismos vos, de vossas louvaminhas tericas! Abandonai, o
quanto antes, o vcio triste da falsa adorao, que vindes de trazer de outros credos. Amai-vos
como a filhos de um s Senhor; amparai-vos sempre; compreendei-vos como partcipes de
uma mesma origem, como sujeitos a um mesmo Plano, como votados a um mesmo glorioso
Fim!
        Faz uns trs meses que meu pai me acompanha, em trabalhos que pratico, como guia
de dois mdiuns a da carne. Como tal, esprito intelectualmente cultivado, apanha ele com
facilidade, todos os ensinos. Sobe bem e depressa, para o plano hierrquico em que se achava
antes de reencarnar. E se falhou, mais deveu isso ao passado por expiar, do que mesmo por
incompreenso no presente. Afinal, eu e ele, tivemos agravos no culto dos exteriorismos
religiosistas e nos exclusivismos sectrios. Tal como truncamos a evoluo nos outros, assim
nos imps a Lei de Equilbrio Universal!
       E vamos ao caso. Uma senhora, assistente do Centro Esprita onde trabalhamos duas
vezes por semana, pediu por algum de suas relaes, j desencarnado h bem tempo. Um
pedido de informe, desses to comuns e louvveis. Mas que, em verdade, muita vez, termina
para pedinte da, continuando-se em programas aqui, onde nada deixamos, e nem podemos
deixar, de lado, desde que contando com o beneplcito da Lei.
       Eu e meu pai, fomos localizar o tal irmo, trs dias depois, em lugar bem interessante,
do ponto de vista do mecanismo da Lei de causa e efeito. Estava ele em vastssima plancie,
sem fim, parecia, mas toda inada de grotas e rochas, pedras e pedreiras, areais e sol
escaldante. Com ele, estavam mais trs, e, tudo o de que tratavam era fugir quele lugar
infernal!
        Suarentos, cansadssimos, enferidados, barbudos, famintos, desalentados, saltavam e
ressaltavam as mesmas pedras, davam voltas em torno s mesmas grotas, repetiam os mesmos
caminhos, elaboravam os mesmos planos. Nunca, porm, saam do mesmo stio. Ali, sempre
ali, como que atados por invisveis mas tremendos liames de variada ordem!
 E dizem que o Dante sonhou!...                 murmurou meu pai, profundamente
compungido.
       O senhor sabe como fazemos para que o encarnado pense a nosso gosto, embora se
julgue dono das idias. Um dia, os encarnados compreendero que, o panorama medinico 
muito mais vasto do que imaginam. Ouso dizer, mesmo, que muitos inspirados e intudos da
carne, servem-nos com muito mais preciso do que aqueles que nos emprestam seus corpos.
Isto, porque uns nos oferecem o seu campo mental em certo ngulo de sentido, enquanto
outros, fornecendo seus corpos, ou o mecanismo vocal, fazem-nos sofrer a falta de adaptao
mental, o choque de fludos, a natureza das radiaes, as divergncias de ordem moral etc. Os
chamados gnios; os grandes artistas, os predestinados de qualquer matiz, so mdiuns em
grau mais sublimado, embora falhos ainda, possivelmente, em outros ngulos da
organizao. ..
      E iria alm em minhas divagaes de carter pessoal, no fosse tal irmo penoso, ter
um repente nos ouvidos.
 Quem est falando a?...  indagou ele, volvendo o rosto trgico para o nosso
lado, sem nos ver.
       Quem vos quer auxiliar!  gritei-lhe.
       Onde est escondido?...
       Em parte alguma... Sou um invisvel...
 Assombrao!... Assombrao!...  disseram os outros, procurando fugir do local.
       Parem! Parem!...  bradou-lhes ele, firmemente.
      Volvidos os outros, tornou ele a nos indagar:
       Que quereis de ns? Como podereis nos auxiliar?
 Somos espritos benfazejos... Uma vossa parenta, ainda encarnada, pediu em vosso
auxlio e, como h da parte da Lei disposio em vosso favor, eis que viemos vos procurar.
Quereis nosso amparo, irmos?
 A misericrdia de Deus baixou sobre ns?           disse ele, iluminando os olhos
embaciados, por um momento.
 Sim e no,  respondi-lhe, dadas as minhas novas concepes.
       Ento... Ento...  fez ele, duvidoso.
 Deus no  desaforento e nem favorista, caros amigos; basta de apelar para Seus
favores e temer Seus desaforos. Tudo quanto se passar com Seus filhos j conscientes,
representar e nada mais, o produto de disposies internas.  assim que age a Suprema Lei.
No vem de fora, mas sim, representa apenas o fiel do equilbrio. Quem discrepa em si o faz,
bem como quem com ela coordenar, internamente o far. Negativa ou positivamente, todo e
qualquer acontecimento de ordem moral, de ordem interna sempre o ser. Logo, nada h para
subir ou descer na Justia Suprema.
 E como viemos parar nestes stios?... Nossa f em Cristo estava acima de todas as
cogitaes!.. .
        Levei em conta que deveria lhes falar; mas que deveriam ver-nos. Sabia que a Lei com
eles j estava, para um tal efeito e, por isso, disse-lhes:
 Responder-lhes-ei, amigos, com provas de fato; mas agora procuremos ver-nos uns
aos outros.
 Como fazer?!...  disse um deles, um homem magro e assustadio.
       E fizemo-nos visveis, num lance de vontade, eu e meu pai. Isso bastou para que
viessem a ns, precipitadamente. Nossos aspectos no poderiam jamais os tornar duvidosos de
nossos caracteres.
 Eis como fazer!  disse eu ao tal homem, abraando-o fraternalmente.
       Sois uns anjos de Deus!  disse ele, comovido.
 Sabeis o caminho para sair daqui?  falou um outro, em cujos olhos brilhavam
lgrimas de contentamento.
        E o tal homem, mvel de nossa ida a tal local, por via do pedido daquela irm j
citada, interrompeu toda e qualquer conversao, dizendo:
 Gostaria, amigo, que nos dissesse qualquer coisa sobre nossa vinda para este lugar
penoso. Disse que nos daria provas de fato...
       E no tendes a prova no fato?  interpelei-o.
 Sendo desencarnados e estando aqui, deveis saber que Deus, por disposio natural
vinculada ao filho, assim disps. Do contrrio, amigos, seria erro da parte do prprio Deus. E
nem vos creio capazes de tal imaginar.
 E a nossa f em Jesus?...  argumentou um outro, vivamente.
 Tudo  relativo... E a f sem obras  morta, meu irmo. Disse que tudo  relativo,
porque o valor da f, em sua relatividade, no poder ser negado; porm, um fator  apenas
um fator e no todos os fatores...
 Que fizemos de crime, ento? Apenas aquilo que todo e qualquer cidado do mundo
poder fazer. De resto, senhor, pregamos a Jesus como nico Salvador, em nossas palavras e
em nossos atos!
 Ento,  objetei  a Justia Divina cometeu o seu primeiro erro, ao tratar de
vosso caso, ela que age do interior para o exterior?
      O homem fez um gesto de dvida, moveu os lbios e disse baixinho:
       No digo isso... Mas...
 Bem,  prossegui ento;  bem, digo-vos que sei de vs o suficiente para falar
com conhecimento de causa. Antes de vir busc-los, sondei-lhes os documentos em vossos
planos de vida, antes de encarnardes. Li de vossas vidas, de vossa condutas etc.
 Ento,  atalhou um outro, que ainda no havia dito coisa;  sabe que fizemos
muito pela Reforma luteranista?
 Sei,  respondi resolutamente,  que lutaram muito pelo sectarismo luterano; sei
que muito fizeram por vossas mesmas convices. E sei que, por isso mesmo, o erro apareceu
em vossos feitos.
       Estou basbaque!  balbuciou um dos presentes, entre dentes.
       E fui prosseguindo, na conscincia do que sabia, por lhes ter lido uma espcie de folha
de corrimento, nas devidas regies correspondentes:
 Pregastes a Jesus como nico Salvador; mas Jesus ensinou que cada qual ser o seu
prprio Salvador, pelas obras que praticar para com o prximo. Dissestes aos homens, que se
no vos aceitassem as afirmaes, que estariam perdidos eternamente. E por um desses
complexos da alma inferior em evoluo, chegastes a sentir prazer na perdio de muitos de
vossos irmos... Quereis dizer que estou exorbitando ou que a Suprema Lei tenha se
enganado?.. .
       Os quatro baixaram suas cabeas. E procurei anim-los, pois eram irmos, eram
lutadores, eram idealistas. Tinham errado num campo onde trilhes de trilhes j erram, onde
erraro, onde eu mesmo tinha chafurdado tristemente.
 Levantai vossos nimos! Sois filhos da Luz! Um grande dia vos espera!
       E o principal deles, para ns, tendo levantado levemente o rosto, olhou-nos com algum
pesar, para logo dizer:
 Verdadeiramente... Mas, creio, esse crime vive sendo repetido por sculos, por
geraes e geraes... Jesus no disse tudo, no poderia diz-lo de modo algum em tal tempo,
e deixou dito que deveramos amar a Deus de todo o corao e com toda a inteligncia. ..
Onde estar o homem capaz disso, no mundo de homens de carne e ossos?...
       Meu pai soltou gostosssimas gargalhadas, tendo ido pela primeira vez falar a um deles.
E disse em seguida:
 Se soubessem que de coisas existem aqum da morte!... Que de tremendos abismos
concepcionais! Que de torturantes lacunas!...
 Que faremos?...  perguntou-me o homem, duvidoso de si mesmo, descrente de
seus merecimentos.
 No vos disse que tudo  relativo? Pois se recebestes o prmio do erro, como no
receber a recompensa das virtudes exercitadas? Por acaso s sero contados os ceitis
negativos?
       Ento...
 Demo-nos as mos, amigos... Isso!... Agora, pensemos em Cristo...
       Dentro de segundos estvamos bem longe daqueles stios angustiosos. Fiz questo de
lev-los a p, pelos arredores da cidadezinha onde comeariam a trilhar a vida melhor.
Atravessamos pomares e jardins, onde o aroma dos frutos e o perfume das flores, embriagam
de suave espiritualidade.
       Parece a terra divinizada!  disse um deles.
       Quem diria que o cu seria assim?  considerou outro.
 E quem disse que podeis falar em nome do que esteja para baixo e para cima? 
interveio meu pai.
        J haviam eles comido dos frutos do local; j haviam aspirado o perfume enlevante das
flores; j haviam observado a plumagem das aves esbeltas e felizes. E ao depararem com uma
fonte, quiseram beber de sua lmpida gua. Todo caso, algum tinha ali fincado uma cruz, em
cujo brao havia esta legenda:
      " Smbolo da necessidade de sacrifcio prprio"
       E um dos protestantes quis orar, pondo-se de joelhos. Os outros os seguiram. Eu e meu
pai nos conservamos de p, pois somos dos que crem mais nas aes nobres em memria do
Senhor, do que daqueles que se dobram muito, mas fisicamente, para o Senhor.
      E seja l como for, ainda estando eles a adorar segundo modo e gosto prprios, uma
voz forte como um trovo se fez ouvir, dizendo:
      " Benditos os que adoram em obras de amor!"
       E tendo todos ns volvido os olhos para o lado de onde veio a voz, vimos que uma
como estrela muito brilhante se formava, tendo o centro cristalino, e de tal modo intenso, que
no se lhe podia encarar. Depois, desfazia-se em belssimas cores, prolongado-se o brilho e a
influncia. Por fim, foi subindo, subindo, subindo... E sumiu-se nas aparentes alturas
siderais. ..
      Os quatro protestantes, ento, perguntaram-me, quase que simultaneamente, como se
algum lhes tivesse imposto a idia:
       Qual seu credo?
 Por cultivo, o Consolador... Por Religio, o Amor... Por Cincia, a investigao
sem preveno... Por Filosofia, cogitar de tudo tendo por base a melhor e mais pura
conscincia da paternidade de Deus... Por Moral, respeitar o mais possvel o direito alheio.. .
Por Justia, o respeito pelas necessidades fundamentais e inalienveis...
       Como cultiva o Consolador?...  interrompeu-me um deles.
 Dentro de dez horas mostrar-vos-ei; quero conduzi-los a uma sesso de Espiritismo.
Ali, ento, lembrai-vos do Pentecostes, daquele batismo de Esprito, para o qual cumprir foi 
carne o Cristo, e por cuja solvncia mereceu dos irmos menores tudo aquilo de que j sois
conhecedores, sem dvida.
 E eu que fui to avesso ao Espiritismo! ...  comentou um deles.
 No vos preocupe com isso... Eu fui um dos crucificadores de Cristo... Tinha a
Moiss na conta de tudo, de completo, e...
 Mas Moiss profetizou sobre Jesus!...  atalhou um deles, vitorioso.
 E Jesus foi crucificado por legar um Consolador!  emendou meu pai.
      E outra vez uma voz se ouviu, dizendo:
      " E ser o confraternizador das gentes, na terra e nos planos errticos!"
       Desta feita, porm, vimos a quem falou; era aquele mesmo alemo batalhador, que
amava a melhor verdade que conhecia, e que no sculo dezesseis, avanando sobre o que j
haviam feito Joana D'arc, Wicliff, Joo Huss, conquistou para milhes de irmos, o direito de
pensar melhor e livremente, sobre as verdades ensinadas pelo Cristo, preparando caminho
para novos surtos no porvir prximo, quando a grande ecloso medinica, revolveria de modo
violento o pensamento humano.
       Os quatro protestantes olharam com carinho invulgar para aquele vulto simptico e
aureolado em luz. Aproximaram-se dele e falaram-lhe com liberdade. E ele falou com
simplicidade, tendo dito mais ou menos:
 Somos falanges de seres que trabalhamos por concretizar no mundo as profecias do
Senhor. Muito ainda resta a fazer, principalmente no campo da Religio, que  um dos que
mais separam os homens irmos entre si. Como lamento que em nome de um Pai de Amor e
Justia, tantos crimes sejam perpetrados no mundo, quer l na terra, quer aqui, onde nas
zonas inferiores, coisas incalculveis se passam!
      Minutos depois, a simptica figura despedia-se e partia rumo aos seus afazeres de
grande chefe de servios.
        E ns rumamos para o departamento competente, onde os quatro novos irmos ficariam
inscritos, para fim de servios. Depois disso, despedimo-nos, eu e meu pai deles, tendo
partido para novos rumos, sempre dentro desse imenso plano geral, to mal compreendido
pelos homens, que tudo querem particularizar, e particularizando entregam-se  dor.
       Afinal, at quando vivero os homens, encarnados ou desencarnados, separando-se no
que no deviam, por questes subalternas? Que coisas so os convencionalismos humanos?
Por que trair o superior em benefcio do medocre e infernal? Onde a razo para, em nome da
cor, da raa, da crena, da posse etc. investir como feras contra os ditames da mais terna e
pura fraternidade?
                                   COISAS DA VIDA. . .

       Havia eu prometido aos tais amigos, mostrar-lhes como praticava o Consolador, dentro
de dez horas. Por isso fomos, eu e meu pai, busc-los no momento aprazado. E os
conduzimos para o Centro onde, sabamos, a tal senhora iria, pois, um amigo havia sido
encarregado de inspirar-lhe tal desejo. Portanto, pelas oito da noite, entrvamos casa a dentro.
       O salo do Centro comporta pouco mais de cem pessoas encarnadas; mas para o mundo
desencarnado, dadas as disposies de servio, e da Suprema Lei em vista disso, as paredes
nada representam. E milhares de seres ali se achavam, os mais responsveis controlando, os
mais precisantes de um lado, os menos de outro, os endurecidos bem mais longe, os grandes
arredios presos, amarrados etc...
 Eis um Centro Esprita!  disse-lhes eu, mostrando-lhes o ambiente em geral.
 Que coisa interessante!  murmurou um deles, olhando significativamente para os
outros.
 Quem so esses luminosos seres?          inquiriu um outro, observando os chefes
espirituais da casa.
 So os guias do Centro, amigos, trabalhadores de nosso plano. So os demnios,
como vs dizeis.
          Riram-se e o mesmo amigo perguntou de novo:
           Por que temos aqui gente presa, amarrada etc.?
 So pobres endurecidos, grandes criminosos etc. Porm, filhos do mesmo Pai de
Amor e Justia. So seres que j estiveram nos baixios e, agora, aos poucos, contando com as
oraes, as prdicas etc., vo se tornando cada vez mais doutrinveis, como dizem os amigos
da carne.
 Os encarnados sabem que isto  assim?  perguntou um outro.
 Imaginam qualquer coisa. Todavia, existem videntes e mdiuns, ou profetas, de
faculdades tais, que muito conseguem saber sobre as coisas destas bandas da vida. Alguns
missionrios encarnados, durante o repouso do corpo, dispem mesmo de grandes franquias
por aqui. E outros h, que conheo, dispondo de faculdades que lhes permitem, em certos
casos, deixar por gosto os corpos e vir agir aqui, no sentido desejado e preciso.
       Todos ficaram silenciosos, depois dessa conversao, em vista do incio dos trabalhos.
Como havia falado aos chefes, foram os quatro situados em lugar que diramos preferenciais,
para como visitantes que eram, poderem assistir do melhor modo aos trabalhos.
       Notei, de minha parte, que nenhum deles se dispunha a reparar nos encarnados ali
presentes.  que no alcanavam ver o que deles se desprendia, nos momentos de mais firme
concentrao, quando o presidente convidava  orao, a bem de algum sofredor. Por isso, fui
colocar minha mo sobre a cabea de um deles, aumentado-lhe o poder de penetrao
psquica. E o homem pareceu estranhar o que se passou depois disso, tendo-me agradecido.
          Depois, propositalmente, fui colocar a mo sobre a cabea nevada daquela que por um
deles havia pedido, tendo beneficiado a todos, por ser tempo, ou por ter ela servido de mvel
ao Supremo Poder, que sempre assim age. E como eles reparavam muito nos meus
movimentos, atentaram bem para a mulher aureolada por tnue colorao verde-claro. E o tal
irmo, pondo bem os olhos na mulher, pareceu perturbar-se. Quis, bem o notei, vir para junto
de mim e dizer-me qualquer coisa. E por isso o chamei. Ele veio e, chegando-se bem para
perto, disse:
 Parece-se com uma irm que devo ter deixado no mundo... Devia ter ela uns trinta
e cinco anos quando desencarnei... Seria mesmo?...
 Ela foi que pediu por vs... Por lembrana dela fui procur-los...
       Dos seus olhos rolavam fartas e felizes lgrimas. E eu lhe ensinei a por a mo direita
sobre a cabea da mana encarnada e orar, para que ela sentisse do melhor modo a sua
presena ali. De fato, mal comeou ele um fervoroso Pai Nosso, que bem sentia eu ser essa a
orao, pela emanao inteligente das ondas emitidas, quando ela sacudiu-se toda, despertando
para outra forma de pensar. Dela  que partia, logo mais, fachos de suave luz para o irmo
desencarnado. E os dois mantiveram, assim, uma eloqente e surda troca de divinos
pensamentos. Houve momentos em que todos ficaram olhando para to belo quadro!  que
um amor de irmos os unia, naquele momento;  que acima de um puro sentimento de amor,
nada parece existir de mais importante, de mais divinizante!
                                    REGRESSANDO

       Com o trmino de uma sesso d-se uma debandada no setor dos encarnados, embora
um certo nmero fique, muitas vezes, comentando este ou aquele feito, esta ou aquela
expresso. No setor espiritual, no entanto, tudo cresce de monta, por ser o nmero de
presentes, muito acima do calculado pelos encarnados.
       Como tal, com o terminar dos trabalhos, reunimo-nos os seis, de novo, eu e meu pai, e
os quatro protestantes. E um deles, quando eu menos esperava, disse:
       Pois estive o tempo todo fazendo um confronto!
       Que confronto?
 Um confronto entre o que via e o grande acontecimento de que trata o segundo
captulo do Livro dos Atos. Somava tudo, para repor o grandioso feito; queria saber o que
estaria ocorrendo, no momento, no mundo espiritual, enquanto os espritos falavam, pela boca
dos Apstolos, em diferentes lnguas, a todos os estrangeiros ali presentes, como diz o texto.
 No esqueam que o nmero no era de onze mdiuns; muita gente mais foi
tomada de esprito. De muitos corpos mais se valeram os emissrios do Divino Mestre, para
poderem falar aos encarnados.
 Uma vez compreendido o esprito do feito, que importa o nmero? Hoje, suponho,
milhes de homens e mulheres emprestam seus corpos para que os espritos falem aos
encarnados, segundo promessa do Cristo. No entanto, outros milhes de homens e de
mulheres, que fazem?...
 Julgam sem saber, afastam-se por inconscincia do dever, maldizem por despeito
sectrio, desconhecem por incria etc. Isso, nada mais do que isso,  foi a emenda de meu
pai.
 Mas com o concurso do tempo...  disse algum, que no sei bem quem fosse.
       E havendo-nos despedido dos chefes espirituais da casa, partirmos, tendo eu prometido
ao tal irmo daquela velhinha bem espiritualizada, um encontro com ela fora da carne, para
dias depois.
        Em verdade, mais o fiz por ela do que por ele. Eu j sabia que ela deixava o corpo
bem disposta espiritualmente, pois nutria grandes convices espirituais e a matria havia
cedido campo aos melhores impulsos do esprito enobrecido. Por isso, fui buscar somente ao
tal irmo, tendo deixado os outros, que lhe eram bem menos avanados em hierarquia. De
fato, este irmo, pelos valores acumulados em outros tempos, logo despertaria para grandes
alturas.
 Vamos, pois do contrrio outros a iro buscar para auxiliar em certos trabalhos, 
disse-lhe eu, assim chegado  regio onde os havia abrigado, de ordem superior.
       E num piscar de olhos, ali estvamos, ante um corpo sem dono. Onde teria ido?
Todavia, colocando a mo sobre a testa enrugada, convoquei-lhe a presena. E ela
apresentou-se, tendo eu lhe dito que no tomasse conta do corpo, pois algum ali presente
desejava falar-lhe.
 Pois que fale. Tinha ido ao recinto do Centro onde sabe que sempre trabalhamos.
 Sei disso, adorvel amiga; mas este cavalheiro deseja falar-lhe. Atenda-o com
brevidade, que de amores por si, esta quase a desmaiar...
 Oh!... Deus!...  foram as primeiras exclamaes, assim que os dois irmos se
reconheceram.
       Um, sustentava ainda os traos vinculados pelas dolorosas provas, naqueles stios onde
o framos buscar. A outra, mantinha no corpo astral a forma do mui gasto fsico que ainda
carreava pelo mundo. No entanto, as radiaes da velhinha deixavam-no longe em
profundidade hierrquica. E eu os deixei a ss; aqueles dois irmos, j estava traado em certo
plano da vida, muito teriam em futuro prximo por fazer. Eram dois grandes trabalhadores do
passado, envoltos nos meandros evolutivos do planeta; de sculos que vinham semeando e
colhendo, ora melhor, ora pior, mas sempre avanando nos campos do saber, sempre
iluminados por uma chama ardente, por uma fora ntima, que lhes norteava os passos rumo
ao ideal perfeito.
        Pela madrugada, voltei para levar comigo ao tal irmo. Despediram-se os dois
espritos, alegres ao extremo, convictos da grandeza do ideal esposado. Tendo-o deixado em
seu plano de habitao, singrei o ter rumo  minha regio, onde meu pai devia estar  minha
espera, a fim de dar cabo de certos afazeres.
       Assim , pois, amigos, a vida de um ex-ateu; gozo a espiritualidade sadia, o prazer
divinal, fazendo o que fao. Por determinao Suprema, que me vem pelos chefes superiores,
preparo campo para o reencontro entre os filhos e o Pai Supremo, entre amigos e amigos! E
agora, permitam-me dizer, a esse Pai de Verdade:
 Que mais, meu Pai, meu Alicerce, poderia desejar um filho que Te negou? Ao
amigo da morte, apresentaste a Vida. Ao amigo do nada, deste o Todo por casa. Ao que
espargia a prostrao moral, deste o esplendor dos nobres ideais! A quem imaginava um fim,
presenteaste um eterno comeo! Deixa-me, pois, dizer aos peregrinos da carne, e aos trevosos
que pairam nos abismos errticos, que a Verdade que s Tu, paira acima do cogitar dos
homens insensatos!
      E a vos outros, amigos e confrades da carne, apelo no sentido de culto o mais
moralizado e cientfico possvel. Nada de fetichismos, de idolatrias religiosistas!
       Fazei a Religio Pura! O Espiritismo, que  o Consolador restaurado, no deve andar
em justaposta condio com as mediocridades religiosas do mundo! Ele foi mui caramente
pago pelo Divino Mestre!... Para que houvesse um batismo de Esprito, foi preciso que uma
cruz se banhasse em sangue inocente! Prezai o custo de vossa herana!...
                          PELA ORDE M CRONOLGICA

        Amados amigos, pela ordem cronolgica das sucessivas Revelaes, o Espiritismo
significa o ponto mais avanado. No entanto, no  por esse crivo que deveis consider-lo. 
pela sua essncia realista, pelo seu fundo moral, cientfico e filosfico, e, acima de tudo, por
ser prtico, por ser experimental. Deveis, tendo em vista tais fatores, compenetrar-vos do seu
imenso poder de influncia social em geral.
       Quantos milhares de anos vos separam dos Vedas? Para cima de oitenta mil, segundo
bons amigos destas regies. Em seguida, os Budas, Rama, Krisna, Hermes, Zoroastro, Moiss
etc., etc. No entanto, amados amigos, quem derramou sobre a carne um ESPRITO
INFORMANTE? Quem precisou de ser primeiramente martirizado, para depois cumprir to
grata promessa?
        No vos perturbeis com o que dizem os filhos da corrupo doutrinria! Aquele
Esprito Santo de cujo batismo fala bem o segundo captulo do Livro dos Atos, no ser detido
pelo muito de falta de brio que comportam as religies humanas, idlatras, fetichistas,
rotineiras, exploradoras e politiqueiras! Um Poder Supremo ordena em contrrio, e, s resta
que o cultiveis em Pureza e Sabedoria.
       Rememorando tal dia, crescida a Jerusalm das raas e dos povos, e fundindo em um
s amplexo divinal, o Consolador vai abrangendo a terra inteira, por falar a todos a linguagem
de confraternizao. Naquele dia, no houve acepo de raas, de credos, de cores, de
bandeiras, de nacionalidades etc. Uma s VERDADE para uma s HUMANIDADE!
Compreendeis, pois, a significao do Pentecostes?
       Considero sobremodo o tempo presente, poca de transio, de violentos choques, onde
os menos avisados perdem a noo dos fatores e, no raro, lanam-se pelos abismos, segundo
a voragem dos vcios, das corrupes em geral. Quero, por isso, lanar meu apelo,
precisamente quando um novo marco a terra est transpondo, rumo aos seus melhores dias.
       Quis falar aos velhos, aos moos, s crianas. E falei, merc de Deus. J disse que no
adiantam negaes e nem fanatismos. O que vale  saber e praticar ainda melhor. A Suprema
Lei, que  ntima a tudo e todos, no se move por pieguismos que tais. Nem se nega com a
negao de quem quer que seja. Dei-vos, pois, o exemplo vivo, tangente e imortal. Este lado
da vida est abarrotado de tais testemunhos! No formeis, portanto, na fila dos proscritos!
       Deus  em tudo e todos o CENTRO GERADOR, onipresente e onipenetrante. Amai a
tudo e todos, com inteligncia e bondade, para poderdes aplicar bem a vossa liberdade
pessoal. Eis aqui, amigos, a grande questo.
        Quem sabe aplicar bem a sua liberdade pessoal?  preciso que o esprito cresa o
suficiente, em Pureza e Sabedoria, para fazer de si mesmo a melhor aplicao. Depois disso,
classificar bem os elementos em geral, a fim de utiliz-los. S assim no praticar asneiras.
S assim far uso decente de tudo e todos. S assim honrar bem ao que  igual em Origem,
em Plano e em Finalidade.
     Quero, pois, terminar. Mas quero faz-lo  custa de um trecho da mensagem:
" CONSOLADOR, O UNIFICADOR RELIGIOSO" . Quero reproduzir um grande aviso,
quero passar avante uma prece que vale por um programa de vida, na terra e em nossas
regies, onde humanidades vibram, lutam, anseiam, evoluem e oram o cntico da UNIDADE
entre Deus e o que  Seu  a chamada Criao, que para ns  Emanao Divina. Eis o
trecho:
       " Como vs, esprito amigo, um outro impulso move o mundo humano, desde Joana
D'Arc no sentido de restaurao do Cristianismo e unificao dos credos.  a idade cclica
quem pede contas aos fatores histricos, sendo que estes reclamam ao homem, melhores e
mais avanados conhecimentos. A terra, meu irmo, carece de reformas profundas, de
revigoramentos de perodos em perodos. E os ltimos cinco sculos distinguem-se pelo
contedo evolucionrio mais potente jamais vivido ou imaginado. Tudo o que era s local
toma carter universal. Tudo o que os grandes vultos, os Vedas, Rama, os Budas, Moiss, o
Cristo, disseram empiricamente, deve ser dito e provado de modo prtico.
       A era do falar na Verdade j foi; a era nova reclama o ver, o viver a Verdade. O
tempo que compreende de cinco sculos para c, no seu esprito de renovo, nada mais faz que
preparar campo para as sortidas mais grandiosas, para a grande unificao religiosa, que se
processar nos milnios prximos. E  por isso que te dizemos, para que compreendas o
porqu de tantas e sucessivas manifestaes do plano astral, baldeando para o recesso humano,
conhecimentos profundos, prticos, vigentes, reais.  por isso que se diz ao homem
encarnado, que em qualquer plano de vida, na carne ou no alm carne, a funo de viver 
parte integrante da prpria Verdade. Que se processa em condies normais. Que no deve
imaginar em planos milagrosos, misteriosos, porque o cu ou o inferno jamais estiveram fora
do prprio homem, jamais foram alheios ao homem.
       Queremos, esprito amigo, que o homem se compreenda como funcionrio de Deus em
Deus, onde quer esteja, honrando a funo, para o nico servio imortal, que  a
autoglorificao. Basta de viver na terra como se fosse um degradado! Chega de querer
comprar o cu externo por meio de fraudes, de sacramentos mentirosos! Levanta-te em ti
mesmo, nas aes sociais diuturnas e, forja o cu com o vigor da Verdade expressa, atravs
de obras dignificantes.
       A Verdade  Deus. O homem  Verdade, por ser emanao divina. Viva o homem a
Verdade em si, no culto de si em Deus e de Deus em si, que tal  a norma redentora. Fora da
CONSCINCIA DA UNIDADE tudo  falso, entenda quem puder! E o que transmito 
recado de mirades de grandes e insignes vultos, numa conclamao unitria e feliz, num
convite  elaborao do cu interno. E todo e qualquer ato humano, que concorra para a
emancipao interna do prximo, ser tido como a maior oferta a Deus, no Santurio de Sua
Essncia, que  o ntimo de tudo. Ama-te, pois, no teu irmo! Deus  AMOR e a lei  amar.
       A tua prece, portanto, dever ser prtica, precisa, vigorosamente realista, tal como o 
Deus em ti, a Vida em si, o cu interno, a mais premente e augusta necessidade; a tua orao
deve ser o pensamento do trabalhador, do artista, do cientista, do verdadeiro crente, que 
ao local e necessria, no mbito do infinito e eterno movimentar. Porque, em triste mister
labuta, todo aquele que desconhece a necessidade de ao presente, imediata e necessria. Um
eltron ou um gro de areia, um homem ou um planeta, um sistema ou uma galxia, todos o
que devem fazer  desempenhar a funo devida. Nada mais. E para isso fazer, meu amigo,
preciso  te compenetres dos fatores locais e da prpria funo. Se o que  matria o no faz,
por ser inconsciente, por qual razo poder deixar de o fazer o homem?
       O homem est to incrustado no cu, o quanto o cu o est no homem. Basta de
antropomorfismos! Basta de mentiras teologais! E por isso, quero que ores no plano real da
vida de relaes. Tu, o teu prximo, tudo o que te for essencial  vida e  edificao, so
presentes e locais. O esprito sofredor, o atuado, o rfo, a viva, o doente, o nu, o faminto,
so lies de vida. Por que queres ficar nas sala de aulas e pensares no estudo, na lio que ali
no seja ministrada, que ali no venha a ser ensinada, coisa ficciosa e alheia ao meio e s tuas
necessidades? Amigo, aprende na vida a ser prtico. Aproveita o tempo de estadia na sala de
aula, que  o viver onde a Divina Providncia julgou acertado e necessrio. No te furtes ao
dever, pensando em cus estranhos e longnquos, milagrosos ou misteriosos, vindos por meio
de formalismos dos homens!
        Tantas vezes volvers  carne, quantas vezes trares o mandato para com os irmos em
geral e necessitados em particular. Porque a Providncia te colocou no lugar preciso e devido.
Um esprito  um aluno; uma condio  um ensino necessrio. Que importa vs a um culto
religioso qualquer, se no atenderes primeiro e acima de tudo ao irmo que geme, que precisa
de tua solidariedade? Que  religio, afinal de contas?  fingir diante de Deus e dos homens?
Pois se s templo de Deus, como tudo o , adora a Deus no bem fazer aos teus irmos. Essa 
a norma que te ensinou o Divino Modelo.
       Quero que vivas esta orao, no envio de ondas mentais, no raciocnio, no trato com os
semelhantes. E ela te far iluminado, feliz, triunfante, porque  a prpria vida em execuo, 
a funo maravilhosamente exposta. Em outros tempos, outros missionrios ensinaram
grandes oraes, modos de aplicao do poder mental. Mas isolaram o homem de Deus, como
isolaram Deus de Sua Obra. Um crime, um grande crime, portanto. Eles ordenam, eles
querem, que deixes tais ensinos, tais erros, tais crimes. Querem que vivas em Deus do mesmo
modo que Deus vive em tudo que  Seu. Ora, pois, assim, compreendendo o esprito da
prece, e no a forma material:
                                   PRECE

       " SAGRADO PRINCPIO. No Santurio de Tua Divina Essncia, que 
no ntimo de mim e de tudo, Te adoro como Vida, Amor e Justia. Como em Ti
tudo , tudo vibra, tudo evolui e palpita, em Ti vibro, Senhor, no desejo de
saber, de despertar-me para as supremas realizaes.
       Em Ti, Deus, apelo para todos os poderes da Vida, para todos os seres
benfazejos. Quero cooperar no movimentar infinito, o eterno de Tua Obra.
Quero auxiliar o despertar dos meus irmos, quero torn-los mais felizes, mais
sbios, melhores.
       Em Jesus, Senhor, depositaste o Poder Diretor do Planeta. E no Teu
despenseiro fiel e prudente, quero espelhar-me, para que as minhas aes sejam
a glorificao da existncia. Na escola da Vida quero aprender e ensinar, assim
como  lei Tua e fundamental. Quero crescer em Ti, no mago de mim mesmo,
onde s o fundamento. E quero o amparo das falanges, das legies celestiais,
dos espritos misericordiosos.
        Desperta, Deus, nos homens, o sentimento de Tua Unidade para com
eles, para com tudo o que  Teu. E os homens aprendero a saber e a amar em
Verdade. Eles Te sentiro como Pai, e Tu sers amado em tuas obras. Acende
nos homens, o lume da esperana laboriosa e construtiva, da conscincia que age
e edifica para a eternidade.
        Em Jesus Cristo, apelamos aos Teus Mensageiros esclarecidos, no sentido
de apoio s nossas aspiraes divinais. Aos guias de todos os tempos, pedimos a
assistncia aos quebrantados de nimo, aos que se debatem e pranteiam, aos que
gemem nos lugares de dor, de provas e de expiaes.
        Senhor! Esparge por sobre a humanidade, a ao dos Mensageiros do
Amor, da Paz, do Saber, da Sade. E os Teus filhos acordaro para um novo
ciclo, para uma Era melhor, para um dia de mais luz.
       Aos que pedirem a assistncia dos guias e dos mdicos, para os corpos e
para os espritos, d que sejam servidos e fartos. s a Fonte perene de todos os
bens. Em Teu Nome, Senhor, que os guias da humanidade semeiem as curas, a
pacincia, o perdo e a tolerncia.
       Aos que pedirem a fluidificao de guas; aos que pedirem, como o
pedimos ns, um sono reparador, bons sonhos e felizes companhias astrais, fazei
que isso tenham. D-lhes um bom dia, uma boa noite, muito bom senso, sade e
trabalhos santificantes. A vida  uma graa para quem a viver bem.
       E agradeo-Te, Senhor, o ter podido pensar bem. Apelo ao Divino
Mestre e s legies esclarecidas, no sentido de amparo aos sofredores
encarnados e desencarnados. E acima de tudo, Deus, cumpra-se a Tua Soberana
Vontade. Tu s Pai e ns somos filhos. Em Ti nos damos por servos, na
augusta exemplificao de Jesus Cristo."
        Como vedes, esprito amigo, a prece deve ser a vida em vibraes mentais, bem assim
como a vida, deve ser a prece executada. Entrego-te uma invocao penetrante, necessria e
feliz. Como a irs orar? Como a irs viver? O teu pensamento refulgiu, ao l-la, de um modo
brilhante, em repuxos de luz, em atraes amorveis. Um pouco do cu interno evidenciou-se,
e figuras belas foram criadas no campo de tua retentiva. Como  belo o orar com sentimento e
inteligncia, definindo supremos anseios!
       Que a orem, portanto, todos os homens, felizes ou infelizes. Os que riem e os que
choram, os que pedem e os que querem dar. Ela  uma ao. Que nela meditem os adeptos de
todos os credos, enquanto no puderem fundir-se no nico credo, que  o Amor.
       Que a orem, acima de tudo, os que pedem pelos outros, os que necessitam
desempenhar funes missionrias no seio da humanidade sofredora. Que a orem os que
carecem de guas fluidificadas. Que a orem os que precisam libertar-se de atuaes astrais.
Poderosas legies a acompanham, para espargir o bem a quem fizer por merec-lo. Que a
orem aqueles que, por suas divinais inclinaes, durante o repouso dos corpos, desejem dar-se
 assistncia aos que pranteiam e gemem, em companhia dos iluminados do espao. Que a
orem a criana, o jovem e o velho.
        E concluindo esta carta, peo um pensamento de amor para com todos os missionrios
de todos os tempos. A Obra Divina  de sempre e de todos. Ningum jamais foi s, fez
sozinho, fosse o que fosse. Deus quer e exige o esprito de u iv said d de fr t n a e,
                                                               n er l a e,           aer id d
de cooperao. Ama-te no prximo, e estars edificando para ti mesmo um mundo interno,
feliz e prspero. Ao reino do cu, que  interior a tudo e todos, no se vai por outro caminho.

DE UM EMISSRIO"
